LIVRO LIÇÃO DE VIDA
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 10 de março de 2006
Liliana Onozato<br> Reportagem Local 
O carro resolveu não funcionar justamente quando tudo que você mais precisava era chegar logo. Ou, então, aquele relacionamento de longos anos chegou ao fim. Pode ser também que você não tenha passado no concurso que tanto almejava. E assim segue a lista de lamentações. Saiba um pouco da história de Susane Lopes Hasuda que, com sabedoria ímpar aos 17 anos, lança hoje seu primeiro livro, e tire suas próprias conclusões a respeito desses contratempos da vida.
''Su'', como é carinhosamente chamada pelos familiares e amigos próximos, nasceu em Londrina, na manhã de 28 de fevereiro de 1989, com paralisia cerebral. Durante seu desenvolvimento algumas limitações foram apresentadas: ela não fala, não escreve com caneta ou lápis, não come e se senta sozinha, não se locomove sem a ajuda de outras pessoas e tem dificuldade de controlar os movimentos. Entretanto, uma das frases que ela diz em seu livro autobiográfico resume a essência de sua realidade: ''eu posso ser deficiente, mas não sou burra''.
''Jamais diga Nunca'' surgiu de uma das atividades que Susane realizava nas sessões de terapia ocupacional. ''Por causa da digitação, a terapeuta sugeriu que a Su escrevesse um livro, então ela escrevia um pouco, parava, voltava a escrever até que ano passado ela conseguiu terminar'', revelou Fabiana Cavalcante Lopes, sua mãe, que também é responsável pela pré-edição do livro.
Por outro lado, suas restrições não a impedem de se destacar pela simpatia, inteligência, perspicácia e um excelente senso de humor. Na escola onde cursa o 3º colegial (Colégio São Paulo), suas disciplinas prediletas são filosofia e psicologia: ''porque eu gosto de debater'', acrescentou Susane.
Ao invés da fala e da escrita, suas vontades e comentários são expressados através de uma placa de acrílico adaptada no teclado do computador e também por várias pranchas de comunicação preparadas pela mãe. ''Durante sua alfabetização, nós preparávamos alguns recortes com as sílabas e letras para formar palavras, mas conforme ela foi crescendo me questionei de que modo ela poderia codificar o que estava sendo aprendido. Em 1997 eu trouxe de São Paulo um modelo de prancha atualmente desatualizado em que constam verbos, artigos, algumas expressões. Ela aponta com o dedo nas colagens e desse modo suas frases são formadas'', explicou sua mãe, também psicóloga.
Hoje Susane tem pranchas de comunicação que são utilizadas na escola, no sítio da avó e em casa, cada uma montada de acordo com suas vivências. Por exemplo, em casa, no lado esquerdo da prancha há fotos pequenas dos familiares mais próximos. Na sequência, uma representação do teclado do computador. Em outra parte, expressões como ''quero bolo'', ''xá comigo'', ''não'', ''sim'', entre outras comumente utilizadas por ela, também estão coladas.
''Conversadeira'' como a maioria dos adolescentes, quando Susane se mostra especialmente expressiva, sua mãe brinca dizendo ''segura o dedo, Su, segura o dedo''. Na escola, uma assistente particular a auxilia durante os exercícios em sala de aula e durante as provas. ''É uma pessoa que eu treino especialmente para ficar ao lado dela. Se a Susane responde determinada alternativa errada, a assistente deve ser fidedigna. A Su gosta de participar da educação física, peças de teatro, acampamento, enfim, de todas as atividades'', disse Fabiana.
Durante a entrevista, Susane interrompeu para pedir a importante opinião de Isnard Cordeio, um dos tios prediletos que é jornalista e também estava presente. ''Ai, como estou indo, tio?'', questionou. Esbanjando admiração pela sobrinha, Isnard foi objetivo e respondeu que ela estava ''nota dez''. Entre uma gargalhada e outra, Susane contou que adora gemada, Coca-Cola e ouvir música sertaneja. ''Quando não tenho aula em algum fim de semana, sempre vou ao sítio da minha avó. Mas também gosto de jogar boliche e ir ao shopping'', acrescentou a adolescente.
O livro ''Jamais diga Nunca'' mescla comoventes narrativas em primeira e terceira pessoas, incluindo depoimentos da família, educadoras, psicóloga, fisioterapeuta e fonoaudióloga.
''Eu sempre digo que é necessário dar um passo de cada vez. E uma brincadeira que a gente sempre fazia, até mesmo antes que ela nascesse é que, por causa do pai ser de origem japonesa, ela poderia ser nissei, sansei, eu dizia, 'não sei'. Não sei como vai ser o futuro dela. A única certeza é que aonde quer que ela vá, eu estarei ao lado dela. Uma adaptação de cada vez'', declarou sua mãe.
Em um dos relatos de Susane, ela comenta que após seu nascimento, seus familiares pensaram que ela tinha falecido devido à paralisia cerebral. Hoje, depois de ter transposto diversas pedras em seu caminho, a jovem vislumbra um futuro promissor. ''Esse livro é uma vitória. Pretendo escrever outro, inclusive o segundo já está sendo escrito. Esse ano, já está decido, vou prestar psicologia na UEL'', ressaltou.
Serviço:
- Lançamento do livro ''Jamais diga Nunca'' (Editora Londrix), de Susane Lopes Hasuda. Apoio cultural da Padaria e Confeitaria Central e Posto Tupã. Hoje, às 14 horas, nas Livrarias Porto (Catuaí Shopping). Preço sugerido R$ 14,99.


