LIVRO Glauber Rocha em edição reforçada
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 11 de abril de 2003
José Geraldo Couto<br> Agência Folha 
Glauber Rocha (1939-81) está de novo no centro das discussões sobre o cinema brasileiro. E alguma vez deixou de estar? Um dos marcos inaugurais de sua trajetória de controvérsias, o livro ''Revisão Crítica do Cinema Brasileiro'', está sendo relançado pela editora Cosac & Naify, em edição reforçada por um consistente prefácio do crítico Ismail Xavier e por uma compilação das principais críticas publicadas no país quando o volume veio à luz, no longínquo 1963.
O impacto do furacão Glauber Rocha não ficou restrito ao Brasil, como atesta ''Glauber - Um Olhar Europeu'', do italiano Claudio M. Valentinetti, recém-lançado pelo Instituto Lina Bo e P. M. Bardi.
Mas voltemos à ''Revisão''. Em 1963, o Cinema Novo dava seus primeiros passos. Glauber só havia feito ''Barravento'' (1961). Seu livro, um exame passional da cinematografia brasileira até então, pareceu a muita gente um precário panfleto escrito por um petulante fedelho de 24 anos.
O que justificaria essa ''Revisão Crítica'' e acabaria por transformá-la num dos textos mais influentes já publicados sobre o cinema brasileiro seria a obra cinematográfica do autor. Arma de combate, demarcação de território, plataforma de geração, ''Revisão Crítica'' é um apanhado histórico fortemente marcado pelas opções estéticas e políticas de seu autor.
Num texto adjetivado e sentencioso, Glauber condena sem remissão o cinema paulista como um todo, por seu artificialismo e sua ilusão industrial. Eleva às alturas Humberto Mauro, pintando-o como uma espécie de fonte límpida do Cinema Novo. Mesmo sem ter visto ''Limite'', descarta Mário Peixoto como um talento desperdiçado pelo narcisismo e pelo idealismo burguês. Na mesma vala, lança Walter Hugo Khouri.
Apesar do ''parti pris'' e do tom militante, há passagens de uma acuidade de análise admirável. Por exemplo, nas páginas sobre ''O Cangaceiro'' (1953). Cabe lembrar que, no momento em que dissecava impiedosamente o épico sertanejo de Lima Barreto, Glauber preparava seu próprio mergulho no cangaço e no sertão, ''Deus e o Diabo na Terra do Sol''.
À luz da filmografia de Glauber, o próprio ''Revisão Crítica'' pode ser lido como um épico, o do nascimento de um cinema, povoado de dragões da maldade e santos guerreiros.
Sobrou pouco espaço para falar do livro de Valentinetti, ''Glauber - Um Olhar Europeu''. Só cabe dizer, sumariamente, que se trata de uma rica abordagem da obra de Glauber, filme a filme, inserindo-a no contexto cultural e histórico do Brasil, que Valentinetti - tradutor de Jorge Amado e João Ubaldo- conhece bem. Mais que isso: o livro faz uma espécie de compêndio da recepção crítica do cinema de Glauber na Europa, em especial na Itália e na França, mostrando que a arte do diretor baiano ajudou a fecundar e arejar o melhor pensamento sobre cinema no mundo.
Serviço: ''Revisão Crítica do Cinema Brasileiro'', de Glauber Rocha. Editora: Cosac & Naif, R$ 45 (240 págs.).
''Glauber - Um Olhar Europeu'', de Claudio M. Valentinetti. Editora: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi (tel. 0/xx/11/3744-9902), R$ 35 (195 págs.)


