Vocês dizem no livro que a história contada pelo compositor Willi Zobl, em Campinas, não obedecia a uma linearidade. Como foi o trabalho de resgatar a história confrontando o depoimento de Willi com a documentação dos fatos?
No início foi como juntar um enorme quebra-cabeças, pois nossas conversas aconteciam nas poucas vezes em que Willi vinha ao Brasil para visitar seu filho. Depois, trabalhamos com documentos enviados por amigos e também através da internet. Na verdade, e quem ler o livro verá, a história é muito maior do que o relatamos ali. Nosso maior trabalho, depois que a história ficou pronta, foi enxugar ao máximo o texto. Mostrar num relato simples o tamanho da história e sua grandeza. Willi contava, por exemplo, longas histórias dos tempos em que viveu na Alemanha Oriental, de suas viagens e a forma como ele mesmo foi montando o quebra-cabeças da história de Herbert Zipper.
Willi Zobl, que criou as 23 variações da ''Canção de Dachau'', procurou durante anos por Herbert Zipper, autor da primeira versão da música. Como se explica que Zipper não tivesse a mesma curiosidade em relação a Willi já que suas composições se tornaram conhecidas em várias partes do mundo?
Lembre-se, isso está claro no livro, que o maestro Zipper sentia-se como alguém que quisesse esquecer seu passado europeu. Depois, as coisas que ocorriam em Viena, na Áustria, ou em círculos europeus de música erudita nem sempre cruzavam o oceano. Com certeza, Zipper nunca soube das 23 variações, que durante muito tempo eram apenas uma tese acadêmica de Zobl. Só muito mais tarde, nos anos que antecederam o desfecho da história, elas seriam gravadas e tocadas na Europa. Mas, já dissemos, o círculo de música erudita é restrito, não atravessa oceanos com rapidez... e nos anos 80 não existia internet ou esta velocidade na informação com a qual a gente convive hoje. Depois, lá na Califórnia, numa vida voltada para seus alunos, para a educação musical, Zipper vivia um certo isolamento.
A primeira versão da ''Canção de Dachau'' foi criada no início dos anos 30. Nesta época, a arte passava por uma revolução e a música popular ganhava espaço. A canção criada por Zipper, dentro das condições absurdas de um campo de concentração, apresentava o viés da modernidade?
Com certeza, foi o aspecto estrutural da ''Canção de Dachau'' que chamou a atenção de Zobl, justamente quanto à modernidade da composição.
A letra da ''Canção de Dachau'' transita entre a ironia e o protesto repetindo um lema do campo de concentração: ''O Trabalho Liberta'' . Em algum momento, a música provocou a ira dos nazistas sendo encarada como uma composição maldita?
Isso não dá para saber. A música era cantada nos campos de concentração e com certeza não era a única. Deviam existir outras do gênero. Na verdade, não existe uma história sobre a música e nem foi nossa intenção fazer um livro histórico, mas simplesmente um relato sobre uma história maravilhosa.
Hoje em Londrina, no lançamento do livro, o público poderá ouvir a ''Canção de Dachau''. É a primeira vez que vocês fazem este tipo de experiência, mesclando música e literatura?
É. Esta é a primeira experiência e estamos também curiosos para saber do resultado.
Na opinião de vocês, que tipo de emoção esta música provoca?
Quando você ouve dentro do contexto da história a emoção é grande, e tem um sentido universal de conscientização contra a violência... contra toda a forma de violência.
Para vocês, o que significou retomar a história da ''Canção de Dachau'' transformando-a num livro?
Entre outras coisas, a satisfação de ter conseguido resgatar detalhes da história da humanidade do século 20, a partir de um relato fascinante, no campo da música, da poesia e a partir de uma visão brasileira. Um olhar daqui, do outro lado do mundo, para acontecimentos que marcaram.

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