LIVRO Figurões da imprensa abrem o jogo
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 25 de junho de 2003
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Entrevistar figurões da mídia brasileira não é tarefa para amadores. Tidos como inacessíveis, não costumam abrir a agenda para falar sobre seu metiê, especialmente diante de gravadores ligados. O professor de Comunicação Vitor Sznejder, no entanto, conseguiu vencer as resistências de alguns profissionais e está publicando um livro com seus depoimentos.
''Jornalistas'' (Editora Mauad) reúne entrevistas feitas há dois anos com Evandro Carlos de Andrade (a quem o livro é dedicado), Mino Carta, Ricardo Boechat, Luiz Garcia, Merval Pereira, Rodolfo Konder e o norte-americano Jonathan D. Beard. Proposital ou não, a ordem como foram dispostas as conversas sugere um crescendo que vai do tom ameno à abordagem de temas delicados, como a morte de Vladimir Herzog nos porões da ditadura e um recente assassinato cometido por um amigo e colega de profissão.
No prefácio, Alberto Dines exalta a iniciativa do autor em transportar para o papel as entrevistas armazenadas no computador. ''Papel é real, informação eletrônica, virtual'' assinala. ''A Internet democratizou a informação, incorporou o jornalismo ao nosso relógio biológico e, ao mesmo tempo, tornou tudo o que está nela rigorosamente efêmero. Digitalizadas, as palavras ganharam força descomunal e, simultaneamente, tornaram-se menos eficazes''.
O assunto, palpitante, poderia render alguma controvérsia ao longo das páginas. Mas entrou na pauta apenas no diálogo com Luiz Garcia, o editor de Opinião do jornal O Globo. ''Não é verdade que o jornalismo on-line seja o espelho do jornal impresso'' diz Garcia. ''Nele, as notícias estão mais próximas do rádio, a notícia é mais seca, o mais direta possível. No jornal, somos um sistema de dar notícias distanciadas da hora em que acontecem, com o máximo possível de interpretação e explicação. Trabalhamos com mercadorias inteiramente diferentes!''.
Sznejeder procura explorar a trajetória profissional e as memórias de infância e adolescência dos entrevistados, embora não deixe de cutucá-los aqui e ali com temas espinhosos. Num trecho, o ex-diretor da Central Globo de Jornalismo Evandro Carlos de Andrade (que morreu em 2001) lembra que o compositor Cartola chegou a trabalhar de ''contínuo'' para ele no Diário Carioca.
Em outra passagem, ataca os colunistas de TV do jornal Folha de S. Paulo chamando-os de desonestos. ''Tenho informações de dentro do Conselho Editorial, que a ordem lá é perseguir a Globo, mesmo que seja com injustiça e mentiras'' diz. Num escorregão do autor, os profissionais das empresas ''Globo'' são privilegiados no volume. Além de Evandro e Garcia, o outro jornalista entrevistado da casa é Merval Pereira, que num trecho conta como foi limado do vídeo na fase em que cobria o noticiário do Palácio do Planalto para a emissora de Roberto Marinho.
''Fiquei um ano trabalhando para a TV, ganhando o salário da televisão, e não conseguia entrar no vídeo porque a Alice Maria achava que meu bigode era torto. Ela dizia que eu tinha dificuldade na televisão. Com esta fama de que a Alice não gostava, ninguém me colocava no ar. Eu tinha boas notícias, passava, mas não aparecia'' lembra, acrescentando que hoje os dois são amigos a ponto da ex-chefe elogiar sua desenvoltura à frente da câmera.
Um dos trunfos da coletânea, a entrevista com Ricardo Boechat confirma a ''lenda'' de que o colunista social do Jornal do Brasil quase não lê. ''Hoje apenas folheio jornais e revistas, e não leio livros há muitos anos'' conta. A Internet também não o seduz. ''Nem sei mexer, não sei acessar, nem quero aprender. Não tenho saco!'' conclui. Solicitado a opinar sobre o jornalismo brasileiro, não poupa críticas.
''Ele é repetitivo, oficialista e dependente do mundo institucional'' enfatiza. ''Alimenta-se daquele Triângulo das Bermudas formada pela Câmara, Senado e Planalto numa intensidade que talvez não interesse ao Brasil verdadeiro, à sociedade, ao cidadão comum. E todos os jornais fazem igual, o que talvez explique aquele fenômeno das colunas brasileiras serem tão mais lidas e pautarem tão mais do que no resto do mundo''.
Mino Carta, diretor de Redação da revista Carta Capital, vai mais longe em seu depoimento. Diz que o jornalismo feito hoje no país é ''excepcionalmente ruim''. ''Você não acompanha o que está acontecendo no mundo pela imprensa brasileira, a não ser que você siga alguns programas de televisão a cabo'' afirma. Fechando o volume, Sznejder entrevista Rodolfo Konder, que há anos ocupa cargos burocráticos chegando a exercer a Secretaria de Cultura de São Paulo durante as gestões de Paulo Maluf e Pitta.
Nos anos 70, foi ativista político testemunhando o assassinato sob tortura do colega Vladimir Herzog, no Doi-Codi. No livro, retoma o caso recapitulando os anos sombrios da ditadura militar: ''Estou convencido de que o Vlado morreu depois de ter assinado uma confissão que era evidentemente ditada por eles, porque começava assim: 'fui aliciado para o Partido Comunista pelo Rodolfo Konder'. A gente não usava esta expressão. O que eu acho é que, depois de ter feito aquilo, ele teve um momento de indignação, porque era uma pessoa muito ética, e rasgou o papel. Então os caras bateram nele de novo, mas sem técnica, sem cuidado acho que aí ele morreu''.
No final de seu depoimento, a conversa gira em torno do caso policial protagonizado pelo jornalista e (então) seu amigo particular Pimenta Neves, que matou a namorada em agosto de 2000. ''Ele deixou de ser membro da minha tribo'' diz. ''Um membro da minha tribo não mata ninguém. Muito menos assim, pelas costas. Não foi uma morte, um assassinato. Foi uma execução. Ele a baleou pelas costas e depois foi lá e deu um tiro na cabeça. Fiquei tão decepcionado que foi como se ele tivesse morrido. Mas depois eu fiquei com pena. Ele se matou ao matá-la. Ele ainda não sabe que morreu, mas está morto''.
Vitor Sznejder, o autor, trabalhou durante anos como jornalista nas organizações Globo. Atuou também nas áreas de comunicação empresarial e relações públicas. Desde 1998, leciona Comunicações de Marketing na Fundação Getúlio Vargas.
Serviço:
''Jornalistas''. Autor: Vitor Sznejder. 102 páginas. Editora Mauad (tel. 21/2533-7422). Preço: R$ 24,00.


