Livro e mostra resgatam o 'navegante do ar'
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de abril de 2002
Adriana Del Ré Agência Estado 
Malsucedida, a primeira tentativa de levantar vôo com seu balão dirigível, em 18 de setembro de 1898, não foi suficiente para abalar os ânimos de Alberto Santos Dumont. Dois dias depois, lá estava o incansável aeronauta para uma nova tentativa. Um contratempo na aterrissagem, mas contornado a tempo. Apesar do incidente, não experimentei nessa noite senão um sentimento de enlevo. A lembrança do êxito enchia-me a alma. Eu naveguei pelo ar!, descreveu ele certa vez.
Foi um dos principais feitos de Santos Dumont. Foi o início de tudo. Mais de cem anos depois, Eu Naveguei pelo Ar dá nome à exposição fotográfica que ocupa o Memorial da América Latina, em São Paulo. Nela, estarão cem imagens antigas do aviador, recuperadas digitalmente pelo fotógrafo João Musa e pelo designer Ricardo Tilkian. O projeto teve parceria do engenheiro Marcelo Breda Mourão, responsável pelo trabalho de pesquisa e pelos textos encontrados no livro, que será lançado simultaneamente pela editora Nova Fronteira.
Expostas em painéis, as centenárias fotos sofreram ação do tempo e, por vezes, da má conservação. Por isso, a necessidade de restaurá-las e, então, ampliá-las. A moderna tecnologia contribuiu para o processo. Usamos scanner de alta resolução, que possibilita que os detalhes fiquem mais claros, explica João Musa. Há fotografias 3x18, com as quais geramos arquivos de 100 a 120 megabites, explica.
O projeto, iniciado no fim de 2000, exigiu um trabalho de garimpagem. João Musa relembra sua peregrinação em busca do material fotográfico de Dumont. A primeira coleção veio da Fundação Santos Dumont. À medida que recuperamos e escaneamos as imagens, começamos a nos interessar pela história dele. A segunda leva pertence ao acervo do Museu Paulista, este devidamente organizado e catalogado.
Outra fonte foi encontrada na pequena cidade de Cabangu, no alto da serra da Mantiqueira, em Minas Gerais, onde o aviador nasceu. Cedido pela família Castelo Branco, trata-se de um material inédito que, segundo o fotógrafo, nunca havia sido publicado. A equipe restaurou um total de 800 imagens, das quais apenas 100 compõem a exposição.
Durante esse processo de pesquisa, nos surpreendeu a falta de informações sobre Santos Dumont. Ele acredita ainda que muito material esteja em poder de colecionadores. E alerta para as condições de sobrevivência da Fundação Santos Dumont, que necessita de patrocínio para conseguir manter objetos e fotos.
Assim como a mostra, o livro homônimo abrange a vida e os feitos do pai da aviação entre 1898 e 1910. Retrata suas históricas façanhas, como quando contornou a Torre Eiffel com seu balão de número 6, em 1901. A obra também coloca por terra mitos em torno do aeronauta brasileiro. Santos Dumont não inventou o relógio de pulso, ele já era usado pelas mulheres. O que aconteceu foi que Cartier o homenageou ao criar um relógio de pulso inspirado nele.
Outro ponto questionado por João Musa é a de que Santos Dumont representava um gênio isolado. Ele era cercado pela alta sociedade francesa, que estava interessada no desenvolvimento da aviação e do automobilismo. Depois da temporada em São Paulo, a exposição Eu Naveguei pelo Ar, patrocinada pela BR e Promon, parte para a Casa França-Brasil, no Rio.
Serviço: Alberto Santos Dumont - Eu Naveguei pelo Ar. Exposição no Memorial da América Latina - Salão de Autos. Avenida Auro Soares de Moura Andrade, 664, tel. 3823-4600, em São Paulo. Até 19/5. Livro homônimo de João Luiz Musa, Marcelo Breda e Ricardo Tilkian. Editora Nova Fronteira, 168 páginas, R$ 109,00


