São Paulo, 21 (AE) - Valdir Azevedo, muito famoso, na segunda metade dos anos 70, gostava de brincar, pedindo aos repórteres: "Quando falarem de mim, digam que sou louro, alto, de olhos azuis". Era baixinho, barrigudinho, moreno. E brincalhão. Não estava ligando para a imagem. Era um músico. Foi quem deu dignidade ao cavaquinho. Antes dele, o cavaco era instrumento de centro - usado em acompanhamentos, para complementar o que faziam os violões. O cavaquinho veio à boca de cena com Valdir Azevedo.
Há 50 anos, Valdir Azevedo editava as partituras de duas das músicas brasileiras mais executadas - no mundo inteiro - de todos os tempos. No dia 10 de janeiro de 1950, a editora musical Todamérica publicava a partitura de "Brasileirinho"; oito dias depois, seria a vez de "Delicado". (O cinquentenário é da edição das partituras; o disco com as duas músicas havia saído no ano anterior.) Disco e livro - Para comemorar a data, a Todamérica prepara a edição do "Songbook Valdir Azevedo": um livro de partituras e, encartado, um disco. Apenas 17 partituras no livro e 17 faixas no disco. O músico Ely Arcoverde foi encarregando de cuidar das partituras. O bandolinista Déo Rian começa na segunda-feira a gravar o disco. É o diretor musical do trabalho e garante fidelidade aos arranjos originais de Valdir. Com ele estarão os músicos Bruno Rian, seu filho, também bandolinista, André, ao violão de sete cordas, Márcio Moura Almeida, ao violão de seis cordas e cavaquinho, Valmar, fazendo os solos de cavaco e Darly Guimarães, ao pandeiro.
As peças escolhidas são "Cavaquinho Seresteiro", "Brasileirinho", "Contraste", "Camundongo", "Delicado", "Frevo da Lira", "Cinema Mudo", "Flor do Cerrado", "Vê se Gostas", "Minhas Mãos", "Meu Cavaquinho", "Não Há de Ser nada", "Chiquita", "Quitandinha", "Pedacinhos do Céu", "Sentido", "Sobe e Desce" e "Você, Carinho e Amor". O texto de apresentação do livro foi escrito por Jairo Severiano. Obra pequena - Valdir Azevedo compôs relativamente pouco. Gravou 132 músicas. Mas vendeu mais de 1 milhão de discos com gravações do "Brasileirinho". Isso numa época em que música instrumental
definitivamente, não vendia discos. Aliás, ainda não vende. Valdir Azevedo é uma exceção absoluta. "Brasileirinho" e outras obras de Valdir, mas principalmente esta, foram gravadas por gente tão diferente quanto Ademilde Fonseca, Beth Carvalho, Dominguinhos, Baby do Brasil, Alceu Maia, Pepeu Gomes, Marina Lima, Henrique Cazes, Armandinho, Robertinho do Acordeon, Banda Mel, Wagner Tiso, Altamiro Carrilho, Oswaldo Montenegro, Zimbo Trio, Roberto Ribeiro, Moraes Moreira, Quinteto Brasil - e estrangeiros da Alemanha, áustria, Itália, do Japão, Escandinávia, dos Estados Unidos, Canadá, Holanda, Inglaterra, etc., etc.
É curioso notar que "Brasileirinho" foi gravado também pelo Época de Ouro, na segunda fase do grupo, quando Déo Rian era o solista. Déo entrou no Época de Ouro para substituir Jacó do Bandolim, depois da morte deste. Jacó detestava o "Brasileirinho". Era um grande músico, um gênio, certamente um dos maiores instrumentistas da música popular. Mas era um ranzinza, famoso por suas implicâncias. Era um grande compositor - superior a Valdir Azevedo, mais sofisticado, com mais fôlego e realizadas pretensões. Por isso mesmo, não aceitava o sucesso popular do choro de Valdir Azevedo. Nem mesmo considerava um choro clássico.
Num depoimento ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, Valdir Azevedo contou - lembra Jairo Severiano - seu único encontro com o bandolinista. "Olá, Jacó", disse Valdir. "Olá, Valdir", respondeu Jacó. Foi tudo o que falaram um com o outro, em toda a vida. Achando que estava sendo mal remunerado pela gravadora Continental, Jacó do Bandolim brigou e desligou-se. Naquele mesmo momento, Valdir Azevedo estava gravando "Brasileirinho". Que foi sucesso nacional. Jacó era respeitado entre os músicos, sobretudo entre os chorões. Valdir virou ídolo popular (e, no rastro, houve outros sucessos instrumentais - Jamais te Esquecerei, de Antônio Rago, São Paulo Quatrocentão, de Chiquinho do Acordeon e Garoto, as gravações do Regional de Canhoto).
Para Jacó, a culpa era de Valdir. "Ele deturpa a tradição do choro", dizia. O que, aliás, era verdade. "Delicado", por exemplo, é um baião. Valdir gravou outros ritmos. Não era um chorão, na acepção mais rigorosa do termo. Até porque o choro clássico tem um sabor de melancolia que as músicas de Valdir jamais tiveram. Sua obra é alegre, sua maneira de tocar, exuberante - os chorões são mais contemplativos. É notável que Valdir Azevedo tenha pontificado, nos anos 70, em Brasília, tocando com o Clube do Choro local, e que a mais nova expressão nacional do choro, o jovem Hamilton de Holanda, brasiliense, filho de um antigo companheiro de Valdir do Clube do Choro, seja um instrumentista de igual exuberância. Ainda que Hamilton toque bandolim, não cavaquinho, a alegria altissonante com que encara a música é herança de Valdir. Altissonante e veloz - Foi essa alegria altissonante, veloz, que fez o cavaquinhista Henrique Cazes pensar duas vezes antes de aceitar, há dois anos, o convite para gravar o disco "Relendo Valdir Azevedo" (RGE). Afinal, cedeu. Até pelo desafio que significava abordar de forma camerística, suave, a obra de Valdir. Pois ela pode não ser choro, no sentido estrito, mas é muito bela. Valdir Azevedo, ele mesmo, gravou mais de 50 discos de 78 rotações por minuto e outros 20 elepês. Quase nada está disponível em CD. Ainda assim, "Brasileirinho", "Delicado", "Pedacinhos do Céu" e outras obras dele, que morreu em 1980, aos 57 anos, continuam sendo alguns dos títulos mais populares da música brasileira.

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