São Paulo, 24 (AE) - A palavra punk é usada, coloquialmente, para definir o que é feio, esquisito, grosseiro, agressivo, sujo, desagradável, violento, fedorento. Pode-se dizer que uma festa foi punk porque só tinha gente feia ou que um parque de diversões é punk porque os brinquedos estão quebrados. Punk, a palavra, foi usada por Sheakespeare para designar prostituta, informa Silvio Essinger no livro "Punk: Anarquia Planetária e a Cena Brasileira". "Policiais (da televisão) como Kojak (a) usavam para chamar os bandidos insignificantes, ou os prefessores para ralhar com os alunos imprestáveis", escreve Essinger.
Ainda nas palavras do autor, que é repórter do "Jornal do Brasil" e correspondente da revista "International Magazine": "Tudo o que a maioria hipócrita considerava errado era punk". A última frase indica como deve ser olhado o livro de Essinger. Quando fala em "maioria hipócrita" está fazendo referência ao sujeito que não sobe em palco para jogar fezes na platéia, não usa camiseta com os dizeres "Mate-me", não se droga até cair na sarjeta e (de preferência) morrer. Quase todos nós, enfim. Livro - "Punk: Anarquia Planetária e a Cena Brasileira" é um livro interessante. Traça a história do movimento que eclodiu na Inglaterra, em 1977, e faz um mapa minucioso, exaustivo, de seus ecos em nossas terras tropicais. Por outro lado, é um livro deslumbrado com o movimento de que trata. Todas as opiniões do autor são para glorificar o movimento punk e os punks, justificar seus atos absurdos (tratados como gritos de revolta contra o "sistema") e suas contradições. É parcial, portanto, e não considera alternativas. Assim, deve ser lido como livro da história do movimento punk. Nesse sentido, é instrutivo.
Começa a história lá atrás, nos anos 60, com os que chama de pré-punks - The Who, Jimi Hendrix, The Kinks, The Trashman, The Dead Boys. Elege três heróis definitivos: Sid Vicious (do Sex Pistols), Darby Crash (do The Germs) e Kurt Cobain (do Nirvana). Vicious morreu de overdose: "Vinte e um anos de idade e se tornava um mito do rock - se não o maior, certamente o mais autodestrutivo deles". É um elogio. Crash morreu de overdose, aos 22 anos: "Só não teve a chance completa de virar mito porque, dois dias depois, John Lennon era assassinado em frente ao edifício Dakota, em Nova York". Cobain viveu mais, mas foi "derrotado pelas fobias do estrelato" aos 27 anos, misturando revólver e heroína.
O autor tem mais heróis: Iggy Pop, Velvet Underground ("Havia em Nova York quem estivesse mais interessado na vida das ruas, em tudo o que a decadente sociedade poderia oferecer de melhor e de pior - drogas pesadas, rock barato, crime, pornografia, paranóia, homossexualismo"), New York Dolls, Neon Boys etc. A primeira banda punk, na história contada por Essinger, foi a Ramones, que estreou no disco em 1976, nos Estados Unidos. Na Inglaterra, o publicitário e comerciante Malcolm McLaren inventou os Sex Pistols (Sex era o nome da grife de McLaren), escolhendo os componentes da banda (Sid Vicious foi o líder; outro chamava-se Joãozinho Podre) por serem feios, drogados e pela incapacidade de produzir música.
É a tese do quanto pior, melhor. McLaren vendia roupa feia e esquisita para jovens rebeldes. Passou a vender também música feia e esquisita, para o mesmo público. Essinger diz que ele era "ambicioso" - e raciocina na base do não importam os meios, importam os fins: o comerciante McLaren foi necessário para o surgimento do Sex Pistols; então, tudo bem. O jovem Sid Vicious morreu, mas punk é para morrer, mesmo, ou deixaria de ser punk. Piores são as tentativas de análise sociológica do autor. Para justificar a "urgência" do movimento, em Londres, diz que a cidade, nos anos 70, estava "econômica e socialmente falida, com brigas de gangues e explosões de intolerância racial e social alimentadas pelo reacionarismo dos tablóides sensacionalistas".
O livro é apologético com os "desastres musicais"( é mais um elogio) dos Sex Pistols e de outros grupos. Um dos integrantes perguntou ao público, depois do show: "Não somos a pior coisa que vocês já viram?" É o que o autor considera uma "sarcástica e antológica frase", típica dos punks de verdade. Brasil - Vindo para o Brasil, analisa a "extrema politização" de uma banda como a Plebe Rude, de Brasília, conta quem foram os punks do Rio, São Paulo, Brasília, Porto Alegre etc. Cita os prediletos - Ratos de Porão, Replicantes, Legião Urbana, Capital Inicial. Inventaria a rivalidade entre os punks da periferia e da capital (em São Paulo e no Rio), dá nome a quem pertenceu ao movimento, até o ano passado. Nesse sentido, faz história.
Mas o autor endossa a pregação infantil contra "velhos" e "caretas" e comete outros erros graves, como a tentativa de expandir o universo punk até o terreno da canção de protesto ou de dor de cotovelo: Maria Bethânia, cantando "Carcará", era punk, Noel Rosa era um punk espiritual, Nelson Cavaquinho um pré-punk, como também Jards Macalé, Araci de Almeida, Maísa, João Gilberto - e até Juca Chaves. O que deve ser algum tipo de piada punk.

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