São Paulo, 28 (AE) - Ninguém discute que "O Gabinete do dr. Caligari" é um marco na história do cinema. A obra-prima expressionista de Robert Wiene é sempre apontada como o filme que expõe o romantismo e a morbidez profundas da alma alemã e, dessa forma, terminou antecipando a adesão dos germânicos ao nacional-socialismo. A partir da análise célebre de Lotte Eisnar
a expressão caligarismo foi integrada ao léxico, e não apenas cinematográfico, como sinônimo de deformação plástica e visual, de forma a expressar um conceito ideológico.
"O Gabinete do dr. Caligari" é o novo volume a integrar a coleção Artemídia, da Rocco, com textos sobre filmes considerados clássicos na seleção do British Film Institute. O autor do texto é o crítico e historiador David Robinson. Em princípio, se poderia pensar que tudo já havia sido dito sobre um filme tão importante. O trabalho de Robinson é valioso. Com base numa extensa pesquisa e documentação, ele mostra que tudo o que se sabia sobre os bastidores do filme era truncado.
A importância do livro consiste em devolver ao diretor Wiene o crédito que ele nunca teve. De todos os colaboradores, aquele a quem a lenda histórica reservou menos crédito sobre os méritos de "O Gabinete do dr. Caligari" é justamente seu diretor. Robinson faz um trabalho de resgate. Restitui a Wiene o que lhe é de direito. Ele começa observando que "Caligari" fez
paradoxalmente, mais para apagar do que para avivar a reputação de Wiene. Sem esse relevo espetacular em sua carreira, ele seria lembrado como um dos melhores artesãos do primitivo cinema alemão.
Possuía fino gosto artístico e o expressou em alguns filmes. "Caligari", porém, eclipsou todo o resto. E quando Wiene se revelou incapaz de igualar ou repetir esse sucesso, foi sempre estigmatizado como o diretor de um único grande filme, que tirou o bilhete da sorte com "Caligari". Isso é só parte do problema que originou o mal-entendido. A outra, que Robinson baseia na sua pesquisa para desfazer, é que, durante quase 50 anos, a versão recebida da história da realização do filme foi a instituída por Siegfried Kracauer, em 1947, no seu influente livro "De Caligari a Hitler: uma História Psicológica do Filme Alemão".
Kracauer baseou seu relato integralmente no que leu num texto inédito, intitulado "Caligari: a História de uma História Famosa", de Hans Janowitz, um dos roteiristas do filme. Baseado nesse texto, ele não hesita em afirmar: "Os verdadeiros arquitetos de "Caligari", desde a concepção da idéia até a última linha do roteiro decupado, foram os dois autores da história e do roteiro (Janowitz e Carl Mayer) e ninguém mais".
À luz da repercussão que o filme obteve posteriormente, não é de se admirar que Janowitz tenha querido assumir com Mayer todo o crédito por seus méritos. Com base nas suas informações, Kracauer ajudou a disseminar a lenda de que mesmo a inovação de mandar pintar os cenários em telas, em vez de utilizar o cenário habitual, pode ser encontrada nas rubricas do roteiro decupado dos dois autores. Não é verdade. Quando Janowitz e Kracauer escreveram, em 1941 e 47 - época em que ambos estiveram exilados nos Estados Unidos -, supunha-se que nenhuma cópia do roteiro de "Caligari" havia sobrevivido.
Posteriormente descobriu-se que o ator Werner Krauss, o próprio Dr. Caligari, havia guardado a dele, mas recusava-se, terminantemente, a deixá-la sair de suas mãos. Só em 1978, muito tempo após sua morte, o documento foi divulgado para restaurar a verdade. Não apenas o roteiro não possui o mesmo número de cenas do filme, até mesmo divergindo em momentos cruciais, como é bastante convencional, não trazendo nenhuma sugestão quanto aos cenários e figurinos que fizeram a glória de "Caligari".
Uma série de artigos publicada por Barnet Braverman, um estudioso da obra de D.W. Griffith, na "Billboard" e, depois, no "Film Year Book" de 1926, chega a manifestar, entre aspas, o desagrado de Janowitz, que afirma que Wiene não devia nunca ter conduzido a produção no estilo abstratro que adotou. A partir daí, Robinson retraça a história para revalorizar a participação do diretor Wiene e de outros colaboradores que sempre tiveram sua importância reduzida ao mínimo por Janowitz e Kracauer: o cenarista-chefe Hermann Warm e o ator e diretor Rudolpf Meinert, que substituiu Erich Pommer como chefe de produção da empresa Decla, que produziu o filme.
Todas essas informações e mais a criteriosa análise crítica de "O Gabinete do dr. Caligari" fazem do livro um lançamento valioso para quem se interessa pelos bastidores do cinema.

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