A primeira vez que Teresa Cristina Montero Ferreira ouviu falar de Clarice Lispector foi no segundo grau, quando a professora de Língua Portuguesa pediu que a turma lesse um trecho do conto ‘‘Laços de Família’’. Na ocasião, Teresa achou a narrativa sobre a conturbada relação entre mãe e filha uma leitura de difícil compreensão. Anos depois, ela voltou a se deparar com Clarice. Desta vez, já cursava a Faculdade de Letras e o texto era ‘‘A Paixão Segundo GH’’. Nesta época, Teresa ficou emocionada quando sua cantora favorita, Maria Bethânia, declamou textos de Clarice no show Estranha Forma de Vida. ‘‘A Bethânia me levou a gostar ainda mais da Clarice. Foi justamente aí que decidi conhecê-la melhor’’, lembra.
Hoje, a doutoranda em Literatura Brasileira pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Teresa Cristina Montero Ferreira, realiza o sonho de transformar a tese de mestrado numa minuciosa biografia sobre a autora de ‘‘A Hora da Estrela’’ e ‘‘Perto do Coração Selvagem’’. Lançada pela Editora Rocco, ‘‘Eu Sou Uma Pergunta’’ esmiuça, com riqueza de detalhes, a vida e obra da escritora ucraniana naturalizada brasileira Clarice Lispector. A idéia de escrever uma biografia, porém, é anterior ao curso de mestrado. Quando começou a fazer a dissertação em 1992, Teresa já havia dado início a uma exaustiva pesquisa que incluiu até a recuperação de documentos importantes, como o processo de naturalização da família Lispector. ‘‘Acredito que esta seja a mais completa biografia em termos de informação’’, aposta.
Durante os nove anos dedicados à pesquisa, Teresa Cristina trouxe à tona informações curiosas sobre a escritora. Descobriu, por exemplo, que a escritora era, na verdade, uma pessoa extremamente reservada. Certo dia, Clarice chegou a queixar-se com o casal Affonso Romano de Sant’Anna e Marina Colassanti que raramente era convidada para reuniões. No dia seguinte, Marina resolveu fazer uma surpresa para a amiga e a convidou para um jantar. Avessa a badalações, Clarice não esperou sequer pelo jantar e foi embora 15 minutos depois de iniciada a reunião. ‘‘Ela era uma pessoa muito ansiosa. Além disso, sofria de depressão e só dormia com tranquilizantes’’, explica.
Para Teresa Cristina, a vida de Clarice Lispector foi profundamente marcada por perdas e tristezas. Ainda na adolescência, ela se culpava pela morte da mãe. Segundo uma crença russa, uma mulher doente se cura caso engravide. Foi isso o que fez Marieta Lispector, mãe de Clarice. O nascimento de Clarice, porém, não conseguiu evitar a morte prematura da mãe. Mais adiante, Clarice viveu a tristeza de um amor não-correspondido pelo também escritor Lúcio Cardoso, assumidamente homossexual. Já casada com o diplomata Maury Gurgel Valente, teve dois filhos: um deles esquizofrênico. O pior trauma, porém, aconteceu em 66. Fumante inveterada, Clarice dormiu com o cigarro aceso e o apartamento em que morava no bairro do Leme, na zona sul do Rio, pegou fogo. Na ocasião, a escritora teve as duas mãos atingidas pelas chamas. ‘‘A sorte foi que a vizinha viu a fumaça saindo do quarto e chamou o porteiro. O filho caçula encontrou Clarice em estado de choque’’, conta.
A mais interessante das descobertas empreendidas por Teresa, porém, diz respeito ao nome de batismo de Clarice. Quando pesquisou o processo da naturalização da família Lispector no Arquivo Nacional, Teresa encontrou o passaporte de Pedro Lispector, pai de Clarice, expedido no consulado russo em Bucareste em janeiro de 1922. Nele, aparece a pequena Clarice, então com um ano de idade, em foto ao lado dos pais e irmãos. Clarice, na verdade, chamava-se Haia, que em hebraico significa vida. Mais de 20 anos depois de sua morte, em 8 de dezembro de 1977, Clarice Lispector continua sendo a escritora brasileira mais lida no exterior. Tanto que Teresa Cristina já está de malas prontas para os Estados Unidos, onde pretende estudar a obra de Clarice sob a perspectiva judaica. ‘‘Quando voltar, já espero ter material para escrever outro livro’’, especula, bem-humorada.ReproduçãoClarice Lispector cujo nome original era Haia, que significa vida em hebraicoAndré Bernardo
Cult Press

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