Curitiba - ‘‘Abriram-se as cortinas do espetáculo. O fominha correu pelo flanco, enfileirou três e mandou a gorduchinha para a zona do agrião. O matador foi no segundo andar e testou a branquinha para balançar o véu da noiva.’’
Se você não entendeu nada do que está escrito acima é porque não costuma acompanhar a narração de partidas de futebol pelo rádio ou televisão. Agora, no entanto, mesmo que você continue sem acompanhar futebol, pode conhecer o significado de tudo. Professor, pesquisador e escritor, Luiz César Saraiva Feijó estará lançando no dia 20 o livro ‘‘Balançando o Véu da Noiva – A Dramática Linguagem Figurada do Futebol’’, em que analisa e explica muitos termos e expressões usadas pelos ‘‘homens da latinha’’ (locutores esportivos).
Feijó pesquisa os termos do futebol desde 1965, quando começou a usar textos de jornalistas esportivos – e escritores – como Nelson Rodrigues, Armando Nogueira, João Saldanha, entre outros, para despertar o interesse de seus alunos pela língua portuguesa. Defendeu tese de doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro sobre as formas de tratar o futebol na comunicação no Brasil e em Portugal.
O livro traz mais de 400 verbetes, termos e expressões do futebol brasileiro e português. Eles foram recolhidos de jornais, revistas, rádios e televisões dos dois países. Para o professor, o grande influenciador no aparecimento destas expressões foi o rádio. ‘‘O rádio é o oráculo popular, enquanto a tevê é mais uma bola de cristal’’, compara o professor aposentado que deu aulas na Universidade Federal do Rio de Janeiro e na Universidade Estadual do Rio e há cinco anos mora em Curitiba.
Torcedor do Fluminense, como Nelson Rodrigues, ele explica que o futebol vive entre duas faces. Uma, a da paixão, do prazer, que é a arte do jogo e da brincadeira. A outra, a da profissão que tem que ter lei e ordem. ‘‘Nas transmissões esportivas, os locutores muitas vezes misturam tudo, o jogo e a profissão.’’ Ele montou o livro seriamente, mas torce pelo lado lúdico do jogo. ‘‘Um locutor esportivo como o Galvão Bueno não poderia criticar o Edilson pelas embaixadinhas que o jogador fez quando jogava pelo Corinthians na decisão contra o Palmeiras. Ele misturou o lado da paixão, do prazer e da liberdade, com o da lei e ordem.’’
O livro tem o subtítulo ‘‘A Dramática Linguagem Figurada do Futebol’’. Para Feijó a dramaticidade citada aparece porque as metáforas e a linguagem figurada são criadas ‘‘tanto para analtecer quanto para denegrir’’ dentro do esporte. ‘‘A dramaticidade se dá porque existe uma tensão permanente entre o bem e o mal, entre o belo e o esquisito’’, explica.
Ele chama a atenção também para o linguajar do futebol que, por ser uma disputa, usa e abusa dos comparativos com as expressões de guerra. Ele lembra que o filólogo francês Robert Galisson catalogou mais de 700 termos ligados à guerra e à violência dentro do futebol daquele País.
Luiz César Saraiva Feijó vibra com a inventividade dos jornalistas e radialistas ligados ao futebol, embora também não poupe críticas. ‘‘Os narradores e comentaristas têm que traduzir na hora a alegria do jogo com a alegria das palavras.’’
Bom, e se você chegou até aqui e ainda não sabe o que significa o primeiro parágrafo, aí vai a tradução: ‘‘Abrem-se as cortinas do espetáculo (o jogo começou). O fominha (jogador que gosta de driblar muito sem passar a bola para os companheiros) correu pelo flanco (lado do campo), enfileirou (driblou) três e mandou a gorduchinha (a bola) para a zona do agrião (para dentro da área). O matador (o atacante que faz muitos gols) foi no segundo andar (pulou alto) e testou (cabeceou) a branquinha (a bola) para balançar o véu da noiva (para marcar o gol).
Serviço:
Lançamento do livro ‘‘Balançando o Véu da Noiva – a dramática linguagem figurada do futebol’’, de Luiz Cesar Saraiva Feijó, pela editora Sociedade Brasileira de Língua e Literatura. Dia 20 de junho, a partir das 19 horas, na Livrarias Curitiba do Shopping Estação, em Curitiba (fone 41 330-5000). Preço do livro: R$ 25,00.

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