Na grande peça de teatro que foi a vida do pintor espanhol Salvador Dalí (1904-1989), um personagem havia permanecido até hoje na obscuridade. O livro ‘‘Sexo, Surrealismo, Dalí y Yo’’, do jornalista inglês Clifford Thurlow, que acaba de ser lançado na Espanha, traz à tona o nome de Carlos Lozano. Nascido em Barranquilla, na Colômbia, o ator, bailarino e galerista teria sido o mais fiel confessor que o pintor teve em seus últimos 20 anos de vida.
Thurlow entrevistou Lozano entre 1995 e 2000, e o resultado é um livro em que são descritas desde as grandes festas promovidas por Dalí até suas opiniões sobre sexo, morte, política e surrealismo durante os anos 70. Lozano morreu no ano passado, em decorrência da Aids.
Em entrevista à reportagem, de sua casa, em Londres, Thurlow disse que o depoimento de Lozano ajuda a mostrar ‘‘o Dalí dos anos 70, um artista cuja obra já era decadente, mas que fazia da própria vida sua obra mais surrealista, entregando-se ao voyeurismo e à extravagância, revelando o quanto o seu trabalho havia sido marcado por sua inibição sexual, ao mesmo tempo em que tentava afastar a idéia da proximidade da morte’’.
Os dois homens se conheceram em 1969, quando Dalí tinha 65 anos e Lozano apenas 22. A diferença de idade é um dos motivos pelos quais Thurlow acredita que Lozano teria tido a imagem mais fiel de Dalí em seus últimos anos de vida. ‘‘O pintor sabia que estava envelhecendo e odiava a idéia de que um dia morreria e, principalmente, a de que o mundo continuaria existindo sem ele. Lozano cumpriu sua carência de ser um pai ou um professor. Por isso acabou ficando muito íntimo e tornou-se seu confessor.’’ Segundo o hispanista irlandês Ian Gibson, Lozano era ‘‘uma versão hippie de um menino-deus asteca’’, fazendo menção a seus traços indígenas. Thurlow o descreve como ‘‘um jovem bonito, que adorava o glamour. Dalí tratou-o como a uma pintura e o transformou’’.
O escritor diz que ambos não tiveram envolvimento sexual. ‘‘Lozano era homossexual e Dalí também, mas, no começo de sua vida, ele escondeu isso, o que era normal na Espanha, principalmente durante o governo ditatorial do general Franco. Dalí tornou-se, por isso, um voyeur.’’
Thurlow diz que Dalí odiava a idéia de ter um aprendiz e que sempre deixava Lozano longe de suas preocupações artísticas. ‘‘Conversavam sobre questões íntimas e sobre a sociedade que os rodeava; a proximidade da morte também era um tema importante. Creio que Dalí exercitou com ele muitas das idéias que transportou depois para sua obra.’’
O livro pode ser encontrado em duas versões: em inglês e espanhol. ‘‘Sex, Surrealism, Dalí and Me’’ (Razor Books) custa aproximadamente 20 libras e pode ser encomendado pelo site www.waterstones.co.uk, www.amazon.co.uk.
Sexo, Surrealismo, Dalí y Yo, da editora RBA (Barcelona, 2001) custa em média US$ 40 e pode ser comprado pelo sites www.livcultura.com.br e também no www.crisol.es.

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