São Paulo, 27 (AE) - Desde dezembro de 1980, quando John Winston Lennon foi assassinado pelo fanático Marc Chapman na porta do Edifício Dakota, em Nova York, sua viúva, Yoko, articula com inquestionável faro comercial o lançamento de seu espólio: discos, livros, depoimentos, programas de rádio e a memorabilia em geral.
"Amor de Verdade" ("Real Love: the Drawings for Sean"), livrinho de desenhos para crianças recém-lançado nos Estados Unidos que a editora Salamandra coloca agora nas livrarias, insere-se nessa estratégia regular de madame Yoko Ono. É uma reunião dos desenhos que John fez para Sean Lennon, seu segundo e mais adorado filho - o primeiro, Julian, nascido em 1963, foi relegado ao backstage eterno pelo pai e o odeia até hoje por isso.
Todo mundo que já foi pai um dia sabe da cumplicidade "artística" com o filho, quando este começa a esboçar suas primeiras representações do mundo. "Amor de Verdade", além de registrar esse momento especial entre John e Sean, tem uma peculiaridade: é feito por um artista de verdade, coisa que Lennon efetivamente foi. Seus desenhos são fantásticos.
Entre as crianças, existem as que tentam reproduzir a árvore e as que desenham a árvore que só existe na sua cabeça. John Lennon pertencia ao segundo time, daí a riqueza de seus desenhos. "John desenhava alguma coisa e explicava a Sean o que era", conta Yoko Ono. "Isto é um gato encarapitado, Sean". E o menino: "Oh!"
Gatos encarapitados, tartarugas, lebres, macacos tagarelas ao telefone, caranguejos e hipopótamos servidos como batatas são alguns dos desenhos de Lennon. O ex-beatle foi muitas coisas na vida: cantor, compositor, ativista político, poeta, falso profeta, porta-voz de uma geração, agitador cultural. Mas um dos papéis no qual se deu melhor foi o de pai de Sean Lennon, talvez como um mea culpa pelo péssimo pai que foi para Julian.
John Winston Lennon nasceu em Liverpool, Inglaterra, em 9 de outubro de 1940. Foi criado por uma tia, Mimi. Quando tinha 6 anos, ilustrou seu primeiro livro. Quando tinha 20 anos, entrou para uma banda de rock-and-roll chamada The Silver Beatles, que mais tarde seria conhecida - do mais escondido rincão do Sahara ao sertão do Piauí - como The Beatles.
Em 1966, John conheceu a artista plástica japonesa Yoko Ono. Foi durante uma exposição que ela organizara em Londres. Ela montara a pintura "Martele um Prego" na galeria Indica, em Londres. Lennon apareceu e perguntou se tudo bem se ele martelasse um prego na pintura. Ela disse que ficaria tudo bem se ele pagasse. Ele retrucou se podia, em vez de pagar, martelar um prego imaginário. "Encontrei um cara que joga o mesmo jogo que eu", disse Yoko, que na época, embora Lennon já fosse famoso, afirmou que não sabia quem era.
Eles viveram um romance tórrido, talvez um dos mais simbólicos do século. Foram presos por porte de drogas e fizeram um protesto impactante contra a Guerra do Vietnã, nus num quarto. Em 1971, Lennon foi morar com ela em Nova York. Até hoje
os fãs atribuem a Yoko o fim dos Beatles.
John Lennon, entre outros, escreveu e ilustrou dois livros de poemas: "In His Own Write" e "A Spaniard in the Works". Todo seu trabalho pós-Beatles, quando passou a morar em Nova York, é recheado de pequenas e originais ilustrações às quais se dedicava sem método. Nunca pretendeu torná-las maiores do que eram - adereços para abrilhantar sua obra poética.
Com o lançamento de "Amor de Verdade", essa propensão de Lennon se mantém. A adaptação e colorização foram feitas por Al Naclerio. A tradução é da papisa da literatura infantil, Ruth Rocha. Trata-se de um livrinho adereço, mas que sustenta com energia o momento de delicadeza e sinceridade da vida atribulada de um ícone do século. "Eu vou criar esse menino, Yoko", ele disse à mulher em 1975, quando Sean nasceu. "Você cuida dos negócios." E assim foi. Yoko até hoje cuida dos negócios.

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