A última sensação literária da literatura francesa, Édouard Louis parece ter despertado o interesse dos brasileiros. O escritor conquistou o leitor com uma literatura de unhas cravadas na vida e todas as suas implicações: “Algumas pessoas doam seus órgãos depois de mortos. Eu vou doar meu corpo à literatura para tentar entender o mundo.”

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Em 2024, Éduard Louis visitou o Brasil onde participou da Flip – Festa Internacional Literária de Paraty - e concedeu uma longa entrevista ao programa Roda Viva da TV Cultura. Nos últimos dois anos quatro de seus livros foram publicados no país pela editora Todavia, justamente aqueles que narram sua trajetória de vida e a de sua família: “Quem Matou Meu Pai”, “Lutas e Metamorfoses de Uma Mulher”, “Munique se Liberta” e “Mudar: Método”.

Com uma narrativa pautada pela autoficção, nos quatro volumes Édouard Louis demonstra como realizou a transformação de sua vida em elemento político. Em “Mudar: Método” esse processo recebe maior destaque: “Cresci num mundo que rejeitava tudo o que eu era, e vivi isso como uma injustiça porque – é o que repeti para mim centenas de vezes por dia, até cansar –, vivi o mundo como uma injustiça porque eu não tinha escolhido ser o que eu era.”

AUTOTRANSFORMAÇÃO

Em “Mudar: Método” o narrador Eddy revisita sua infância e adolescência para revelar seu processo obsessivo de autotransformação. Vivendo uma existência sem perspectiva, numa cidade preconceituosa, numa família pobre e insalubre de tradição operária, com um pai alcoólatra e violento, com uma mãe complacente, o garoto resolve romper com tudo. Vê na escola a única tábua de salvação para um mundo sem pobreza, sem discriminação de sua homossexualidade e sem violência.

Dedicando-se aos estudos consegue uma bolsa em uma respeitada escola de uma cidade maior e conhece pessoas da classe média. Conhecendo a classe média, descobre novas formas de viver e principalmente, aprende sobre a dimensão da cultura: “Vendo-os, entendi de repente que minha mãe não tinha estudado, que pronunciava mal as palavras, que em catorze anos de vida em comum eu nunca a vira com um livro nas mãos. Entendi que tomar banho, toda a família, usando a mesma água para economizar, como fazíamos quando eu era pequeno, não era algo normal – o último se lavava numa água marrom e terrosa –, que no colégio que eu acabara de entrar ninguém nunca tinha feito essas coisas. Que não ter o que comer todas as noites e ter que pedir comida para minha tia ou para a vizinha não era normal também, que não era ‘a’ vida como eu acreditava, mas ‘uma’ vida, e as pessoas que me cercavam em Amiens tinham outra vida, mais doce, mais privilegiada. Entendi que o fato de ter assistido à televisão durante toda a minha infância sete, oito horas por dia, me inscrevia numa história específica, a de pertencer ao mundo dos deserdados, dos pobres, daquilo que os ricos viam de fora como infâncias perdidas. Entendi que para eles estudar era tão natural quanto não estudar era para nós.”

E assim Eddy, aos poucos, vai deixando de lado todo aquilo que não tinha escolhido, mas estava fado a viver como injustiça social, preconceito, discriminação e divisão de classes. Em sua maratona pela autotransformação, muda de nome, troca de roupas, altera o sotaque “caipira”, endireita os dentes e entra na universidade. Literalmente abandona sua classe social e sua família em nome do desejo de vingança contra sua infância aniquiladora.

Por fim Eddy, convertido em Édouard, decide se tornar escritor como forma de nunca mais voltar para a miséria e para a violência. Como pura forma de sobrevivência. Mas, com o passar dos dias, atinge uma escala maior entendimento: “Com o tempo, passei a amar sinceramente a arte e a literatura, a não escrever mais apenas para sobreviver, mas para tentar ajudar os outros, pode ser banal dizer as coisas desse modo, mas é verdade, eu quis escrever livros que fossem armas para os outros.”

Seguindo os corredores da literatura francesa, Édouard Louis, nascido em 1992, come o pão de Annie Ernaux e bebe o vinho de Jean Genet. Consegue unir duas coisas improváveis: crueza e sensibilidade. E subverte a ideia de redenção: “Escrevo porque acho que às vezes me arrependo de ter me afastado do passado, às vezes não tenho certeza de que meus esforços tenham servido para alguma coisa. Às vezes penso que toda essa luta foi em vão e que fugindo lutei por uma felicidade que nunca obtive.”

Imagem ilustrativa da imagem Livro de Édouard Louis aborda a sensibilidade e o preconceito
| Foto: Divulgação

SERVIÇO

“Mudar: Método”

Autor – Édouard Louis

Editora – Todavia

Tradução – Marília Scalzo

Quanto – R$ 74,90 (papel) e R$ 63,90 (e-book)

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