A paixão pode ser descrita como uma gota de água se formando na ponta de uma folha. Uma gota que vai ganhando água e peso até não conseguir mais se sustentar na folha. Então acontece a queda, com a gota se despedaçando no solo.

Nada mais do que a paixão em seu eterno caminho de ascensão, esplendor e queda. Ligação, intensidade e rompimento.

Em seu novo romance, “A Tensão Superficial do Tempo”, o escritor paranaense Cristovão Tezza utiliza como metáfora da paixão o conceito químico de tensão superficial da água. Efeito que explica a fina membrana elástica existente na superfície da água, resultado das ligações das moléculas de hidrogênio e oxigênio.

Lançado pela editora Todavia, a obra é ambientada no atual momento político brasileiro. De um lado personagens dizendo: “Mas quem votou nesse energúmeno?”. De outro, personagens gritando: “Esse homem vai salvar o país!”. No meio do bate-boca com papagaios repetindo asneiras e besteiras, o senso comum passa a corroer os pilares da lucidez.

“A Tensão Superficial do Tempo” narra a história de Cândido, um curitibano de 40 anos que ainda mora com a mãe viúva. Professor de química em um curso pré-vestibular, gasta seu tempo pirateando filmes antigos pela internet. Seu objetivo no ofício da pirataria não é comercial, mas afetivo: auxiliar sua mãe idosa a passar o tempo assistindo vários filmes diariamente no aconchego do quarto. Cristovão Tezza faz do cinema um dos grandes elementos do romance.

Através da pirataria de filmes raros, Cândido estabelece amizade com Líria, uma de suas alunas, cujo pai, Dario, é procurador da república cotado para assumir cargo em Brasília ao lado do novo ministro da Justiça. A disponibilidade de filmes raros desperta a atenção de Antônia, esposa de Dario e madrasta de Líria.

Cândido se define como um homem sentimental: “Eu não tenho vida intelectual; eu só tenho vida afetiva.” E acaba entrando de cabeça em um caso amoroso com Antônia, esposa do procurador Dario. E fatalmente cai do cavalo porque, apesar do procurador considerar o presidente “um débil mental que não merece respeito”, aceita o cargo em Brasília. E sua esposa também segue, ao seu lado, para os corredores do Palácio do Planalto.

A narrativa de “A Tensão Superficial do Tempo” não trabalha com linearidade de tempo ou espaço. Tudo começa com o personagem Cândido sentado num bando do Passeio Público de Curitiba em surto. Em retrospectiva não ordenada, suas lembranças e reflexões começam a desenhar acontecimentos e afetividades. A narrativa passeia por tempos e espaços diferentes, como um mosaico que assume forma definida conforme as partes se complementam.

Em “A Tensão Superficial do Tempo” Cristovão Tezza coloca, num mesmo processo de equivalência, a frustração de uma paixão amorosa e a frustração diante do cenário político. Cândido, o personagem principal, olha apenas para sua vida afetiva, para o privado. Mas a maioria das pessoas próximas olha para o público. Uma parte olha para as ações do presidente como atos e falas de um completo energúmeno enterrando a nação. Outra parte olha para os mesmos atos e falas como grande ação de um salvador da pátria. Todas as certezas, falácias, interesses e contradições do senso comum quando o assunto é política brasileira atual aparecem na ótica das personagens das mais variadas formas.

Um dos grandes nomes da literatura brasileira contemporânea, Cristovão Tezza nasceu em 1952 na cidade de Lages, Santa Catarina. Ainda na infância mudou-se com a família para Curitiba, cidade onde vive até hoje. Autor de mais de 20 livros, seu romance mais conhecido é “O Filho Eterno” (Record, 2007), obra que recebeu os principais prêmios literários do país em 2008.

Não só a paixão, mas também a política pode ser descrita como uma gota de água se formando na ponta de uma folha. Uma gota que vai ganhando água e peso até não conseguir mais se sustentar na folha. Então acontece a queda, com a gota se estraçalhando no solo.

Serviço:

“A Tensão Superficial do Tempo”

Autor – Cristovão Tezza

Editora – Todavia

Páginas – 272

Quanto – R$ 64,90 e R$ 39,00 (e-book)

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