Livro de contos mostra a maldade nas pequenas bondades
No livro “O Bom Mal”, a escritora argentina Samanta Schweblin narra histórias em que a vida comum tromba com estranhezas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 30 de julho de 2025
No livro “O Bom Mal”, a escritora argentina Samanta Schweblin narra histórias em que a vida comum tromba com estranhezas
Marcos Losnak/ Especial para a Folha 

Existem dezenas expressões populares que afirmam que o mal ocupa lugares diversos. Ele pode estar nos detalhes ou nos amplos lugares. Pode utilizar diferentes máscaras ou suntuosas vestimentas. Pode se esconder em qualquer canto ou esquina, no provável e no improvável.
Se o mal pode estar em todos os lugares e das mais variadas formas, ele também pode estar na bondade. Este é o ponto de partida da literatura da escritora Samanta Schweblin, um dos principais nomes da literatura argentina contemporânea. Em suas histórias a realidade sempre está suspensa. O cotidiano existe em estado de suspensão.
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Seu novo livro, “O Bom Mal”, acaba de ser lançado pela editora Fósforo. Traz seis contos onde pessoas comuns são abaladas por acontecimentos inesperados e inquietantes dentro da vida cotidiana. A existência comum tromba com a estranheza e, como consequência, o mundo nunca será o mesmo. Como se o cotidiano tivesse uma realidade paralela que apenas os desafortunados tivessem o dom de tocar com angústia e ternura.
Existe um suspenso contínuo nas histórias presentes em “O Bom Mal”. Também existe um assombro latente na vida das personagens. Um brando assombro que geralmente faz questão de permanecer escondido no canto da sala, nas migalhas de bolacha do sofá ou na xícara ressecada de café.
CONTOS INSTIGANTES
Na literatura de Samanta Schweblin existe um horror latente que não se manifesta. Sempre está a um instante de pular sobre o leitor, mas não pula. Só se manifesta na intenção de ameaça. E cria um suspense contínuo que se prolonga por toda a narrativa e nunca chega a um fim.
O conto “O Olho na Garganta” narra a história de um pai que assiste um abismo nascer entre ele e seu filho. Tudo tem início no dia em que a criança engole, no meio de uma brincadeira, a pilha de lítio do controle remoto da televisão. O acidente compromete a traqueia do menino que passa a respirar somente através de uma traqueostomia. Outra consequência do acidente está no fato da criança perder a capacidade da fala.
Após o incidente, o telefone fixo da casa da família começa a tocar toda madrugada. Quem atende é sempre o pai. Ninguém fala nada do outro lado da linha. Sempre silêncio total. Os telefonemas se prolongam por dias, semanas, meses e anos.
Um incômodo que passa a fazer parte da existência do pai.
O conto “O Todo-Poderoso Faz Uma Visita” traz a história de uma mulher que visita regularmente a mãe com doença de Alzheimer numa clínica de idosos. Numa das visitas, uma das idosas internas com frases desconexas pede algumas moedas para pegar o trem. Num ato de ingenuidade e bondade, a mulher entrega moedas à idosa.
Voltando para casa, encontra a mesma idosa no vagão do metrô. Entendendo que a senhora estava em fuga da clínica, resolve levá-la para casa e ligar para os enfermeiros resgatá-la. O tormento começa quando logo aparece em sua casa, misteriosamente, não os profissionais da clínica, mas o filho da idosa. O homem afirma que não veio buscar a mãe, mas as economias guardadas da mulher.
Uma das características peculiares da literatura de Samanta Schweblin está em circundar o sentido da história narrada sem nunca apontar diretamente para ele. A autora confere grande importância em não narrar o essencial diretamente. Há generosos espaços de silêncios e vazios que potencializam a sugestão. Ao sugerir mais do que afirmar, a narrativa se potencializa diante dos os olhos do leitor.
PRÊMIOS
Samanta Schweblin nasceu em Buenos Aires em 1978. Um dos principais nomes da literatura argentina contemporânea, seus livros foram traduzidos para mais de 40 línguas. Ganhou vários prêmios literários, entre eles o Casa de Las Américas, o National Book Award e o Juan Rulfo – também foi três vezes finalista do Man Booker International Prize. Vive na cidade de Berlim, Alemanha, desde 2012.
Seus livros foram publicados no Brasil inicialmente pelas editoras Record e Benvirá. Nos últimos anos a editora Fósforo assumiu a publicação de Schweblin no país com novas edições e lançou “Kentukis” em 2021, “Pássaros na Boca e Sete Casas Vazias” em 2022 e “Distância de Resgate” em 2024.
SERVIÇO:
“O Bom Mal”
Autora – Samanta Schweblin
Editora – Fósforo
Tradução – Livia Deorsola
Páginas – 160
Quanto – R$ 79,90 (papel) e R$ 55,90 (e-book)


