|
  • Bitcoin 124.626
  • Dólar 5,0950
  • Euro 5,2662
Londrina

LEITURA

m de leitura Atualizado em 29/06/2022, 10:05

Livro de autor londrinense traz a ficção como instrumento de redenção

No romance “Trinta e Três”, o escritor Ricardo Dalai constrói um mosaico utilizando fragmentos de ficção e realidade

PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 29 de junho de 2022

Marcos Losnak/ Especial para Folha
AUTOR autor do artigo

Foto: Divulgação
menu flutuante

 Em seu novo livro, “Trinta e Três”, o escritor londrinense Ricardo Dalai defende o exercício da ficção como uma forma de redenção. Seja no ato da escrita, ou no ato da leitura. Lançado pela editora Patuá, “Trinta e Três” narra a trajetória de um garoto no cotidiano de um seminário. Dividido entre a religiosidade e a descoberta da homossexualidade, percorre o conflito entre o desejo e a fé. No processo de percepção e aprendizado, entende os elementos da culpa cristã em sua existência e consegue reelaborar sua própria visão de culpa.

Na obra o autor utiliza várias formas narrativas, principalmente a forma de diário. Adepto da autoficção, Dalai procura explorar o conflito entre a verdade e a ficção. Sempre levando em consideração que a memória inventa, a memória cria, a

memória sonha.

Doutor em Estudos Literários pela Universidade de Londrina, Ricardo Dalai já publicou contos, poemas, crônicas e dramaturgia. “Trinta e Três” é seu romance de estreia. A seguir ele fala de seu novo livro.    

Em “Trinta e Três” você trabalha com a autoficção. Por que a escolha pela autoficção?

Não é exagero dizer que a autoficção apareceu para mim antes que eu conhecesse a palavra. Escrevi aos treze anos de idade um conto que foi premiado; ele já era autoficcional e eu nem sabia. Na graduação, conheci a obra de Caio Fernando Abreu

e quis, no trabalho de conclusão de curso, defender a ideia de que a vida amorosa dele aparecia ficcionalmente em sua obra, causando uma singular relação entre autor e leitor, uma certa empatia. Foi então que descobri a autoficção e os efeitos que o jogo pode causar na leitura, as tensões na construção do personagem, um conflito entre verdade e ficção. No caso do “Trinta e Três”, eu queria desde o começo brincar com a figura do escritor, mas de repente me vi com um diário real em mãos e que se encaixava em um personagem que já havia nascido na imaginação. Parecia que mais uma vez a autoficção caía no meu colo.

No romance, o personagem principal vive um angustiado conflito entre religião e desejo, entre a fé e a descoberta da homossexualidade. Como você sintetiza esse conflito?

Acho que em uma sociedade tradicionalmente, e talvez até estruturalmente, cristã, esse é um conflito recorrente. O tema na literatura é recorrente. João Silvério Trevisan tem um livro lindo sobre o tema, também autoficcional. Interessante pensar

que ainda hoje o conflito exista de forma tão dura para os jovens LGBTQIA+. Basta olhar o número de jovens que se suicidam por isso, ou os cancelamentos que marcas sofrem ao declarar apoio à causa ou como personagens homossexuais são rechaçados

em filmes e livros para a juventude. E é na juventude que esses desejos mais estão fervendo. Sintetizando o conflito, sequer é o “ser ou não ser” de Shakespeare. Talvez seja mais trágico, pois não existe “não ser” quando se trata de sexualidade: o conflito

está em irremediavelmente não poder ser quem se é.

“Trinta e Três” se revela um romance contemporâneo. Em sua linguagem é possível encontrar uma narrativa fragmentada, múltiplas vozes, diversos gêneros literários, tempos narrativos simultâneos e jogos entre personagem e narrador. Qual seu interesse por formas narrativas não tradicionais?

Os discursos na contemporaneidade, assim como nosso tempo e nossa atenção, são fragmentados. Acho que todo mundo se sente meio múltiplo, como dizia Fernando Pessoa, meio fragmentado, sendo vários ao mesmo tempo. Somos pedaços e

somos vazios. Como pesquisador e teórico da literatura, também me interesso por esses recursos da narrativa, porque acredito que o romance linear, de narrador onisciente, não é mais possível. A memória não é linear. Ela inventa, ela cria, ela sonha. Tentei escrever uma narrativa que dialogasse com tudo isso, e ao mesmo tempo percebo que era a única forma possível de escrever o que estava na minha cabeça.

Ricardo Dallai: "Não é exagero dizer que a autoficção apareceu para mim antes que eu conhecesse a palavra" Ricardo Dallai: "Não é exagero dizer que a autoficção apareceu para mim antes que eu conhecesse a palavra"
Ricardo Dallai: "Não é exagero dizer que a autoficção apareceu para mim antes que eu conhecesse a palavra" |  Foto: Divulgação
 

O final do romance oferece um caminho surpreendente, o caminho da redenção. Você considera a redenção uma força necessária? Ou ela seria apenas uma aspiração?

Sim, acho que é mais uma aspiração que uma força. Não mais a redenção antes buscada, mas uma redenção pela própria escrita. Acredito muito no caráter redentor da escrita. E não só dela, mas também do diálogo, do compartilhamento de afetos, memórias, sonhos, desejos... Acho que, a partir de um conflito muito pessoal, eu queria mostrar como essa interdição da sexualidade por meio da religião pode ferir muito uma pessoa, porque somos todos afetos, memórias, sonhos e desejos. Talvez a

ficção seja essa forma de redenção.

E o que seria a redenção pela escrita?

Acredito na escrita como potência de uma subjetividade, como consolidação dessa subjetividade, de uma identidade. Acho que, assim como a escrita diarística me salvou aos dezenove anos, o personagem de “Trinta e Três” também espera essa

salvação pela ficção, espera entender que ele é. Eu me perguntava muito sobre isso lendo o diário: quem aquele menino acredita ser? No fim, ele percebe ser e acreditar em ficções. Mas quem não? Afinal, a ficção existe para que possamos significar a realidade, sempre absurda e irremediável.

Em “Trinta e Três” há várias referências ao filme “As Horas” de Stephen Daldry baseado no romance de Michael Cunninghan. Você estabelece algum paralelo entre “Trinta e Três” e “As Horas”?

Com certeza. O filme foi um divisor de águas para mim e para o que eu acreditava ser a criação literária. Parece-me que Virginia Woolf também buscava essa redenção por meio da escrita literária e de diários, também descarregava ali o peso da depressão, da solidão, da náusea em existir que ela não entendia muito bem. E os três tempos evocados no filme também mostram como tudo sempre se repete, num eterno retorno das coisas, dos acasos, encontros e coincidências. Tudo isso eu aproveitei na construção do “Trinta e Três”, sem contar a relação com o nome do personagem-poeta, mais um artifício ficcional que emprego.

. .
. |  Foto: Divulgação
 

Serviço:

“Trinta Três”

Autor – Ricardo Dalai

Editora – Patuá

Páginas – 260

Quanto – R$ 45

Onde Encontrar – www.editorapatua.com.br

...

Receba nossas notícias direto no seu celular, envie, também, suas fotos para a seção 'A cidade fala'. Adicione o WhatsApp da FOLHA por meio do número (43) 99869-0068 ou pelo link