Livro conta em detalhes os embalos nos tempos da Jovem Guarda
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sexta-feira, 17 de dezembro de 1999
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 17 (AE) - Foi uma época de marketing ingênuo e intuição tosca. Primeiros ídolos pop do País, os astros ainda adolescentes da Jovem Guarda brigavam com os pais para ir sozinhos a programas de TV e quebravam suas cabecinhas para achar nomes chinfrosos e estereótipos heróicos com os quais pudessem enfrentar o dia a dia do incipiente show business nacional.
A história desses embates primitivos, em seus mínimos detalhes, está contada no livro "No Embalo da Jovem Guarda", de Ricardo Pugialli (Ampersand Editora), que chega às livrarias esta semana. Inventaria mês a mês, do ano do nascimento (1957) ao do rompimento definitivo (1967). Wanderléa acha que nunca a Jovem Guarda foi tão bem vasculhada quanto neste volume. "Acredito que até eu vou recorrer a esse acervo de dados, verificando datas e curtindo inusitados fatos", diz a Ternurinha.
O livro, diz o autor, é resultado de quatro anos e meio de pesquisas em material variado, como notas e notícias em jornais e revistas da época, entrevistas com artistas do movimento, fotografias, fonogramas e depoimentos. Ele poupou apenas Roberto Carlos dos depoimentos finais, por causa do momento pelo qual o cantor passa, envolvido com a doença da mulher.
Não é um "livro cabeça" sobre o movimento. Tem mais o caráter de um almanaque, até mesmo com uma diagramação de almanaque. Pugialli não escreve, apenas organiza o material de forma saborosa para o leitor. E ele foi longe na sua pesquisa. Mas não afirma nada sobre o movimento, apenas dispõe os documentos.
Os remanescentes dos Incríveis sabem, por exemplo, que Netinho (na época, dos Clevers) nunca foi assediado por Rita Pavone, como as notas das colunas sociais afirmavam. Mas a história de como ela deixou uma rosa vermelha sobre a bateria do músico é deliciosa. Assim como é de morrer de rir algumas histórias forjadas para criar os mitos. Erasmo Carlos, o Tremendão, tinha de ser o rebelde sem causa. E como ele demonstrava isso? Negando-se a ser servido pelo mordomo Nicholas
que trabalhava na casa do Rei. "Dou um pontapé na bandeja se esse cara vier me servir, tá?", afirmou o selvagem Erasmo - nascido Erasmo Esteves, em 5 de junho de 1941, no bairro da Tijuca (Rio).
O livro também mostra os rostos e as carreiras de nomes hoje menos reconhecidos da Jovem Guarda, como Bobby di Carlo, George Freedman, Ronnie Cord, Demétrius, The Clevers, Sérgio Murilo (que foi rival de Roberto). Ronnie Von era caçado pelas groupies. E reclama, numa entrevista antiga, de ter cometido a besteira de dizer que a mulher tinha de ser bonita por dentro, na sua opinião.
Já o Rei Roberto suou os medalhões para chegar ao topo, não se iludam. Em setembro de 1964, por exemplo, Célia Maria coroava o novo ídolo da juventude, eleito em votação da Rádio Mauá. Roberto vencera. "Na noite da coroação, ele e seus auxiliares usaram a mesma estratégia de Cauby Peixoto: colocar o fã-clube nas primeiras filas para gritar, desmaiar, subir ao palco e beijar o ídolo, entre outras artimanhas".
A Jovem Guarda demorou para ser hegemônica. Teve de duelar com ídolos da época nas paradas de sucesso, como Elizete Cardoso, Moacir Franco, Dalva de Oliveira, Demônios da Garoa. Seus expoentes fizeram o diabo para chegar lá: há uma foto rara de Roberto Carlos, em fevereiro de 1958, atuando na fotonovela "Assim Quis o Destino", da revista "Sétimo Céu". Tinha então 17 anos e seu pai preferia que estudasse datilografia para cuidar do futuro.
"No Embalo da Jovem Guarda" é uma grande digressão por um passado pré-midiático. Você sabia que Roberto Carlos gastou uma fortuna em presentes de Natal no ano de 1967? Deu um Impala para os pais, um Oldsmobile 66 para Nice e uma camisa italiana e 600 cruzeiros para cada um dos integrantes de sua equipe? Não te interessa? Ora, vamos: era assim que funcionava o mundo pré-"Caras".
Ricardo Pugialli, o autor do livro, é carioca de Marechal Hermes. Tem 39 anos e, fã da Jovem Guarda e dos Beatles
escreveu em 1992 "Os Anos da Beatlemania". Em 1993, foi cicerone do produtor George Martin quando de sua visita ao País, no Projeto Aquarius. Martin apresentou-se no Alto da Boa Vista e sua vinda o fez "adotar" um coral brasileiro, que usou em disco mais tarde.
As frases mais teóricas e contundentes não saem da boca do autor, mas de uma fonte insuspeita, Leno (da dupla Leno & Lilian). "Não havia de nossa parte uma identificação com a ortodoxia totalitária comunista vigente nem, obviamente, com a truculenta caretice da ditadura militar", afirma Leno. "Com o desmoronamento desses dois modelos, o tempo ironicamente demonstrou que, afinal, nós, os alienados, é que estávamos politicamente corretos", diz, com certo sarcasmo. Parece que o tempo ainda não apagou certas feridas daquela onda fresca e agradável do passado.


