Livro conta a história dos velhos carnavais
Carlos Haag
Agência Estado
Você pula ensandecido e se esgoela, cantando as marchinhas no salão, para tudo se acabar na quarta-feira. E depois? Bem, Carnaval só no ano que vem. Não são apenas os foliões que pensam assim, pois, no país do maior espetáculo da Terra, poucos estudiosos se aventuraram a analisar o significado da folia. Preenchendo essa lacuna (grande a ponto de zerar no quesito harmonia), Hiram de Araújo, nota dez em originalidade, escreveu Carnaval, 426 páginas com tudo sobre a festa, lançamento de novembro da Editora Gryphus. Pondo no samba até filósofos como Mafesolli, Peter Burke ou Bakhtin, o pesquisador desenha um painel monumental, das origens até o Carnaval do ano 2000.
Por causa do caráter de folia, a festa é vista de forma depreciativa, indigna de estudos mais aprofundados, embora no passado a sociedade entendesse o seu papel fundamental de regulador das tensões sociais, diz Araújo. Felizmente, hoje, com o fim do predomínio da razão, o espetáculo voltou a ser respeitado em seu caráter de celebração da vida, nota. Para dar estofo aos argumentos, o autor não deixou de fora do bloco nenhum aspecto do Carnaval, seja na sua evolução - dos inícios egípcios, passando por Roma, Grécia, Veneza e sua expansão para o Novo Mundo -, seja na sua consolidação no Brasil.
Você quer saber que escolas desfilaram no Carnaval de 1938, com que enredos venceram e quem foi a comissão julgadora? Está lá no livro, em minúcias. Pode-se até já ter lido boa parte dessas informações esparsas em outras obras, mas uma súmula desse porte é inédita. Sabe como surgiu o mestre-sala e a porta-bandeira? Eles baseiam-se nos pares de balizas e porta-estandartes dos ranchos carnavalescos: o primeiro ladeava a companheira e a bandeira para defendê-las do roubo de grupos rivais. E as baianas? Sua história remonta aos tempos dos vice-reis, quando mulatas vestidas a caráter eram a guarda de honra do andor de N. Sra. do Rosário. Como público e privado vivem a se confundir por aqui, as baianas passaram a fazer parte de qualquer festa e, é claro, integraram-se ao Carnaval, inicialmente como coros de vozes, influindo na escolha dos melhores sambas nas quadras de ensaios.
E o puxador de samba? O desfile, até os anos 50, evoluía apenas ao som de um coro de pastoras, colocadas estrategicamente ao lado do palanque da comissão julgadora. O primeiro a soltar o vozeirão e comandar o espetáculo foi Jamelão, o imortal cantor da Mangueira. E na dianteira da multidão está a comissão de frente. No início eram rapazes elegantes de casaca e cartola que iam à frente dos carros alegóricos, agradecendo os aplausos.
A criatividade dessa ponta-de-lança não é privilégio dos carnavais de agora. Em 1935, a Escola de Samba Vizinha Faladeira revolucionou o desfile incrementando a sua comissão com 12 limusines. Ah, sim: e por que as escolas se chamam assim? Um grupo de sambistas do Estácio, desejoso de criar um grupo semelhante aos ranchos carnavalescos, reunidos na vizinhança de uma Escola Normal, no momento de escolher um apelido perceberam o óbvio.
Se quem ensina às crianças é chamado de professor, nós que sabemos tudo de samba, também somos mestres e formamos uma escola, a Escola de Samba, pensaram. Além disso, foi igualmente uma forma de dar mais nobreza a uma atividade malvista pela sociedade da época, que, europeizada, desprezava a cultura popular em detrimento da erudita, completa Araújo. Há muito mais.
Carnaval lembra a história de cada escola, descreve suas baterias e as funções internas de sambistas e carnavalescos, descreve, ano a ano, as marchinhas que mais encantaram os foliões, relaciona cada baile de gala do Municipal com seus personagens e, entre outros dados preciosos para se entender a festança, conta curiosidades deliciosas como as origens do confete (uma novidade importada, em 1902, da França) e do Rei Momo carioca. Inventado nas pouco aristocráticas redações do jornal A Noite, em 1933, e ostentando um jornalista como cabeça coroada.
O futuro? Uma festa cada vez mais tecnológica e melhor, crê Araújo. Embora seja uma indústria cultural a ser considerada com seriedade, só gostaria que nunca perdesse o seu caráter de interação social e de celebração da vida e do prazer.





