Ademir Fernandes
Agência Estado
A fantástica história do homem que, aos 25 anos de idade, entrou para a história como o primeiro a fazer a travessia do Atlântico de avião, sem escalas, entre Nova York e Paris, está sendo contada num livro de 628 páginas lançado este mês no Brasil pela Companhia das Letras.
A travessia, o casamento com Annie Morrow, o sequestro e assassinato de seu filho e a invenção de uma bomba capaz de fazer circular o sangue em cirurgias de corações danificados são apenas alguns dos acontecimentos ocorridos na vida desse personagem, que também será contada no cinema, em adaptação que já está sendo feita por Steven Spielberg. (Billy Wilder já fez um filme sobre Lindbergh, nos anos 60, com James Stewart no papel principal.)
‘‘Ele foi o primeiro herói da mídia, transformado em deus da noite para o dia, algo que não desejava e que marcou de forma terrível a sua vida’’, comenta o autor.
Na ocasião, o impacto da proeza do interiorano Lindbergh - que morreu há 25 anos - foi o mesmo da chegada do homem à Lua, guardadas as proporções. Ele saiu de Nova York para seu vôo solitário e perigosíssimo e, 33 horas e
meia depois, aterrissou em Paris, ganhando o Prêmio Orteig, um desafio feito por um francês para quem conseguisse fazer o vôo. O autor, Scott Berg, teve acesso ao volumoso arquivo do ‘‘Águia Solitária’’ e, além de pesquisar cartas e diários, ouviu amigos, parentes, os filhos e a viúva de Lindbergh.
O livro reserva um espaço para as viagens que o piloto e ecologista fez em 1968 ao Brasil, onde mora seu filho Scott (ele já havia viajado para cá em 1930, num vôo exploratório pelo Atlântico). Na ocasião, Lindbergh sugeriu a transformação da área dos indígenas do Tumucumaque em reserva, em discurso no Congresso Nacional brasileiro.
Charles Lindbergh passou pela fase mais traumática de sua vida em 1932, quando seu filho primogênito foi sequestrado e encontrado morto tempos depois. O sequestrador acabou sendo preso e executado, e a partir daí o aviador passou a viver isolado por algum tempo. Às vésperas da 2ª Guerra Mundial, integrou o America First, um grupo que pregava a paz para os americanos, alegando que os Estados Unidos nada tinham a ver com com o o conflito europeu.
Ironicamente, porém, foi enviado em 1935 em visita à Alemanha nazista, para conhecer a Lutwaffe e a evolução tecnológica dos alemães. Três anos depois, foi condecorado por Herman Goering na embaixada americana em Berlim e acabou sendo chamado de ‘‘traidor e nazista’’.
Mais uma vez passando de herói a vilão, ele voltou a se isolar, até morrer de câncer, em 26 de agosto de 1974, em Mauí (Havaí), para onde se mudou. ‘‘Charles Lindbergh não foi deus ou demônio, só um homem’’, escreve o biógrafo Scott Berg. ‘‘Ele se transformou num cético que viajava pelo mundo para avisar as pessoas sobre os perigos da modernidade tecnológica, que destruía florestas e poluía o meio ambiente.’’

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