Livro comemora o centenário de Clementina de Jesus
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quarta-feira, 14 de novembro de 2001
Agência Estado 
O centenário de Clementina de Jesus não passou em branco em Valença, cidade do vale do Paraíba, no Rio, onde ela nasceu em fevereiro de 1901. A prefeitura lança hoje à noite, no Museu da Imagem e do Som (MIS) do Rio, o livro ''Mãe Quelé'', com a biografia e depoimentos de personagens que conviveram com a maior partideira que o Brasil já teve. O livro vem acompanhado de um CD gravado para o MIS nos anos 70 e de uma discografia completa, levantada por Paulo César Andrade, cujos títulos, infelizmente, são encontrados só em vinil e, mesmo assim, em sebos. Com o lançamento, será inaugurada também uma exposição de caricaturas da cantora.
Clementina não foi esquecida. A história de Mãe Quelé comprova que não. A professora de literatura Dilma Mazeo quis homenageá-la assim que assumiu a Secretaria de Cultura de Valença, no início do ano, mas esbarrou na falta de informação. Decidiu então erguer-lhe um busto e dar seu nome à praça em frente da igreja principal, dedicada a Nossa Senhora da Glória, santa da devoção de Clementina e certamente sua protetora, pois foi cantando numa festa do Outeiro da Glória, no Rio, que o compositor e pesquisador Hermínio Belo de Carvalho a descobriu nos anos 60.
Feliz com a homenagem, Hermínio quis mais. ''Busto conta história. Sugeri um livro e um disco, ela topou e conseguiu um financiamento da Finep'', conta Hermínio, para quem homenagens a Clementina nunca são demais. ''Ela nos forneceu os códigos que nos faltavam para descobrir a África que não sabíamos decifrar. Quando ouço Marisa Monte revisitar seu repertório, sei que ela não será esquecida.''
''Mãe Quelé'' parte dos textos escritos por Nei Lopes (analisando a questão negra), Lena Frias e o próprio Hermínio para a caixa de nove CDs que a BR-Distribuidora lançou este ano como brinde, mas ganhou ainda depoimentos recolhidos na biografia dela lançada pela Fundação Nacional de Arte (Funarte) e pela editora LBA nos anos 80. Pena que o disco e o livro não chegarão às lojas, só serão distribuídos em escolas e bibliotecas. Por enquanto, quem quiser ouvir Clementina terá à disposição apenas o disco dela na coleção ''Raízes do Samba'', da EMI-Odeon, uma coletânea aquém de seu talento, na opinião de Hermínio Belo de Carvalho.
Se depender de Dilma e de Valença, essa situação não perdura. Nos dias 23 e 24 deste mês, o Rio promove um encontro de jongueiros, do Estado do Rio e de São Paulo, para lançar ''Mãe Quelé''. E a prefeitura pretende ainda transformar em centro de memória a casa onde Clementina nasceu, no bairro periférico de Carambi (hoje ocupada por outra família). ''Ela é nossa cidadã mais famosa, ao lado da violonista Rosinha de Valença e da atriz Dulcina de Moraes'', lembra Dilma. ''Nossa intenção é homenagear as três e manter viva a memória delas. Já estamos pesquisando a vida de Dulcina e também buscando informações com a família de Rosinha.''


