Foi a Semana de Arte Moderna que influenciou a obra de Heitor Villa-Lobos ou ele é que teve participação essencial no Modernismo? E qual é o maior legado desse artista nos dias de hoje? Essas perguntas são respondidas no livro e CD-ROM ''Heitor Villa-Lobos - O Caminho Sinuoso da Predestinação''. De autoria de Paulo Renato Guérios, doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), o projeto celebra o cinquentenário da morte de Villa-Lobos e investiga um pouco mais sobre a vida e a arte do maior compositor da música brasileira.
''Esta pesquisa foi apresentada como dissertação de mestrado em Antropologia, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Sou pianista e decidi dedicar-me ao instrumento após ouvir Villa-Lobos. Então já tinha uma relação de admirador em relação à obra dele. Quando conheci o Museu Villa-Lobos, no Rio de Janeiro, vi que havia um excelente arquivo por lá, ainda pouco explorado, e resolvi aproveitar para unir duas paixões em um mesmo trabalho'', explica o autor.
O livro e CD-ROM em homenagem a Villa-Lobos resgata o que de melhor fez o músico para nosso País, o que o tornou tão especial. ''Sem dúvida, a qualidade das composições é o que o tornou especial. Mas o Villa era muito atento para a recepção de suas obras, e sabia adaptar seu estilo de compor para que fosse ouvido e admirado. Por exemplo, ao chegar em Paris percebeu rapidamente que queriam ouvir obras de caráter nacional. Voltou ao Brasil e compôs música erudita brasileira baseada na música popular e na música indígena, exatamente de acordo com as imagens que os parisienses tinham do Brasil, um país tido por lá como exótico. Em outros contextos, compunha outras músicas: as ''Bachianas Brasileiras'', por exemplo, respondem a uma nova necessidade estética, o chamado neoclassicismo. E é claro que estas músicas circulavam bastante porque eram maravilhosas.''
De acordo com o antropólogo, a formação de Villa-Lobos foi fundamental para que o músico encontrasse no meio erudito características que vieram a ser únicas, brasileiras.''Villa-Lobos teve uma formação que o colocou em uma posição de certo modo privilegiada. Seu pai era filho de imigrantes espanhóis. Nunca teve muito dinheiro, mas era muito erudito. Villa cresceu em contato com os meios populares, que eram aqueles relativos a sua posição social, mas ao mesmo tempo circulava nos ambientes eruditos, tornou-se violoncelista de orquestras no Rio. Este contato com diferentes ambientes sociais possibilitou que eles se tornasse um mediador entre as duas linguagens, fazendo, quando julgou oportuno, uma música erudita que se utilizava, em sua própria substância, da estética popular.''
Sua participação foi decisiva na Semana de Arte Moderna, de acordo com Guérios, e não o contrário, como alguns estudiosos afirmam.''Quando ele vai à Semana de Arte Moderna, já é reconhecido como um compositor talentoso. Alguns estudiosos afirmaram que a Semana tinha sido essencial para a conversão de Villa-Lobos em um compositor de música ''nacional'', mas demonstro em meu livro que esta mudança em seus projetos estéticos ocorreu apenas após sua ida a Paris. Villa-Lobos poderia ter composto música ''nacional'' desde muito cedo, mas só o fez após voltar de sua viagem à capital francesa. Então, para Villa-Lobos, a Semana foi importante apenas enquanto a criação de uma nova plateia e de um novo espaço para apresentar suas obras, a cidade de São Paulo. Mas, ao contrário, o projeto villalobiano foi importantíssimo para que Mário de Andrade aquilatasse suas percepções acerca da possibilidade de existência de uma música erudita brasileira.''
Isso tudo tornou Villa-Lobos o maior nome da música brasileira dentro e fora do Brasil, ainda que as novas gerações tenham tido pouco contato com sua obra, uma das mais ricas e diversificadas no cenário erudito. ''No exterior, ele é reconhecido como o maior compositor erudito brasileiro, sem sombra de dúvida. Ele chega a ser sinônimo de música brasileira por lá. Sua música é mais um canal de divulgação da cultura brasileira no exterior'', exalta Guérios. ''Seu maior legado é o conjunto de sua obra. Podemos dizer que é um dos grandes compositores do século XX. Ele foi muito prolífico, compôs muito em diversos estilos, e boa parte de sua obra é desconhecida, algumas composições não foram sequer gravadas ainda.''
''Para quem quiser começar a conhecer o Villa, além das músicas mais conhecidas (''O Trenzinho Caipira'', a ''Ária da Bachianas nº 5'' e a ''Bachianas nº 4'' para piano) recomendo ouvir o ''Choros nº 3'' e uma composição sinfônica maravilhosa, que se chama ''Uirapuru''. O CD-ROM que estou publicando é também uma boa introdução a sua obra, pois apresenta toda a sua trajetória através de um passeio por trechos de músicas que Villa compôs'', sugere Guérios.

mockup