São Paulo, 11 (AE) - O livro "Flávio Império", que será lançado amanhã (12) à tarde, na Pinacoteca do Estado pela Edusp, refaz a trajetória revolucionária desse artista múltiplo que transformou de maneira definitiva o teatro brasileiro. Organizada por Renina Katz e pela irmã do artista, Amélia Hamburguer - respectivamente a presidente e a conselheira da Sociedade Cultural Flávio Império - , a publicação aborda dois aspectos de sua produção: a cenografia e as artes plásticas, mas em nenhum momento perde de vista o caráter generoso e amplo de sua obra. O próprio Império dizia: "Não sou pintor, nem cenógrafo, nem professor, nem arquiteto; ando na contramão das profissões, sou só um curioso." E Renina resume: "Costumo dizer que ele era um homem renascentista."
A obra, que levou dois anos para ser concluída, é uma das realizações da Sociedade Cultural Flávio Império, que já promoveu a catalogação e informatização de seu acervo e fez uma megarretrospectiva da obra de Flávio Império há dois anos no Sesc Pompéia. Após o livro da Edusp, o grupo planeja lançar uma coletânea de seus pensamentos, que não será uma edição tão sofisticada quanto "Flávio Império" (um dos livros mais ilustrados já editados pela Edusp, que abraçou integralmente o projeto), mas promete encantar todos aqueles que se interessam pela história da cultura nacional.
"Como no Brasil a memória é algo que se esgarça, as pessoas que contribuíram com o País têm de ser lembradas graças ao esforço das pessoas próximas", diz Renina Katz, que foi professora e depois colega de Império na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP e de quem se tornou grande amiga. O mesmo carinho marca a relação entre o artista e os outros autores e organizadores do livro.
Os cenários e figurinos criados por ele são analisados no primeiro texto do livro, assinado pela crítica Mariangela Alves de Lima. Traçando uma espécie de retrospectiva da carreira de Império, a crítica analisa com riqueza de detalhes a contribuição de Império e conta como sua obra se inseriu no contexto nacional, desde seus primeiros trabalhos em meados dos anos 50 e as efervescentes produções para os teatros de Arena e Oficina, até sua morte, em 1985.
"Flávio Império inicia-se profissionalmente dentro dessa nova conformação das vanguardas artísticas", escreve Mariangela, ressaltando que "desde seu primeiro trabalho, ainda amador, até a sua ligação com o Teatro de Arena de São Paulo, em 1959, trabalhou com projetos artísticos que contemplam a redenção social da platéia, além de sua eventual redenção estética e espiritual".
Outra característica marcante da obra de Império é sua necessidade de romper com a ilusão tradicional do teatro e de propor uma cenografia e uma arte brasileiras, adotando uma estética completamente inovadora, na qual alia uma rica formação erudita a uma série de elementos da cultura popular, que pesquisava intensamente, principalmente absorvendo técnicas e materiais artesanais.
Apesar da opressão política derivada do Golpe de 64 e da ausência de projetos coletivos e ideológicos que marcaram o início de sua carreira e da crise pessoal decorrente dessa situação, "Flávio Império continuou a fazer as criações mais perfeitas da cenografia paulistana em um esquema de produção isolada", afirma a crítica. Outro aspecto interessante ressaltado por Mariangela é a enorme capacidade do artista de se manter imune a modismos e a novas correntes, como a do reducionismo que se generalizou no início dos 80, mantendo íntegra sua proposta de "constante reafirmação da pluralidade de recursos e formas que, para ele, constituem o traço distintivo da cultura brasileira".
Depoimentos - O segundo segmento do livro, que reúne significativos depoimentos e pequenos textos de Império, coletados e editados por Maria Thereza Vargas, também evidenciam seu engajamento em relação à cultura popular. Nesses trechos, o artista fala sobre sua vida, suas experiências no teatro e até sobre suas relações de trabalho. "Apesar de gostar muito de Zé Celso tenho certa dificuldade de trabalhar com ele; para Zé Celso, tudo é muito dramático, muito dostoievskiano", desabafa ele, afirmando que vê as coisas de forma mais simples. "Prefiro trabalhar sem sofrer", diz.
Ele também defende o caráter lúdico do teatro, que tem por missões fazer o espectador suspirar "pelo prazer estético" e "aliviar a dor do mundo" e afirma que "quem gosta de sair pesado do teatro é uma pequena parcela da intelectualidade que, em geral, pede ingressos de graça porque não tem dinheiro para pagar".
É interessante dividir com Império o processo de criação do cenário, figurino ou de direção da grande maioria das peças em que participou - mesmo que em alguns casos o livro só inclua depoimentos curtos - e acompanhar esses pensamentos com o rico material iconográfico incluído no livro. Obras históricas estão comentadas e documentadas na publicação como "Os Fuzis de Dona Tereza, Roda Viva, Os Inimigos, Doces Bárbaros, Pano de Boca e Depois da Queda". No total foram cerca de 60 espetáculos, nos quais Império procurou recriar a magia do teatro.
Por fim há um longo capítulo ricamente ilustrado dedicado à sua produção plástica, que é analisada de maneira extremamente afetiva por Maria Bonomi. "Flávio Império sabia-se pintor e artista plástico desde sempre", inicia a artista e amiga. Ela lembra sua erudição extrema e o apetite voraz com o qual o artista se jogou no mundo, experimentando e vendo tudo, não para seguir essa ou aquela corrente, mas para criar uma arte autônoma e original.
"Em vez de viver a inebriante escalada dos artistas e do mercado de arte brasileiro, produzindo para um consumo e uma leitura imediata, deslocou-se conscientemente para uma produção plástica incômoda, longe do artificialismo que a imprensa e a crítica celebravam aos altos brados", conclui Maria Bonomi. Flávio Império. Organizado por Renina Katz e Amélia Hamburguer, com textos de Mariangela Alves de Lima e Maria Bonomi. Editora Edusp - Coleção Artistas Brasileiros, 278 págs., R$ 65. Lançamento amanhã a partir das 15 horas. Pinacoteca do Estado. Praça da Luz,nº 2, tel. 229-9844.

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