Livro analisa vanguardas artísticas das duas pimeiras décadas deste século
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 22 de julho de 1999
Por Maria Hirszman 
São Paulo, 23 (AE) - O livro "Primitivismo, Cubismo, Abstração", lançado recentemente pela editora Cosac & Naify (270 páginas, R$ 56) analisa com riqueza de detalhes as vanguardas artísticas das duas primeiras décadas desse século. Cada uma das tendências mencionadas no título é abordada em um capítulo individual, que pode ser lido de maneira isolada ou em conjunto, dando ao leitor uma idéia mais ampla das circunstâncias históricas e artísticas que levaram às intervenções radicais de mestres como Gauguin, Picasso, Braque, Mondrian e Malevich.
Esses trabalhos têm em comum a preocupação em combinar uma visão social com a análise cuidadosa das obras de arte, utilizando instrumentos como a semiótica ou teorias filosóficas. Charles Harrison, por exemplo, que assina o primeiro capítulo, intitulado O Primitivo e o "Moderno", define logo de início os objetivos de seu trabalho. "Quero me concentrar no problema de como as idéias, as crenças e valores são realmente inscritos nas pinturas", explica. Assim, ele passa a utilizar o termo "primitivo" entre aspas, não por uma preocupação em se ater a uma nomenclatura politicamente correta, mas por desejo de reforçar o caráter etnocentrista e preconceituoso contido nessa expressão.
Os artistas que beberam em fontes primitivas, como Gauguin, não estavam livres dessa relação ambígua, de dominação e superioridade, com as colônias. Há também no primitivismo uma forte crítica à modernização capitalista e, em contrapartida, um certo fascínio pelo exotismo e pela suposta autenticidade das culturas à margem do mundo urbano civilizado. Harrison analisa essas questões expondo as diferenças e semelhanças nas obras de diferentes artistas, contrapondo experiências distintas como as distorções e a sexualidade explícita dos expressionistas alemães
o engajamento político de Picasso, o decorativismo de Matisse, o "fauve dos fauves", ou o sonho do primitivo de Gauguin.
Em "Realismo e Ideologia: Uma Introdução à Semiótica e ao Cubismo", o professor Francis Frascina adota um foco de análise bem mais fechado, analisando as experiências cubistas de Picasso e Braque a partir de um enfoque semiótico. Ao mesmo tempo que torna sua análise mais densa, essa abordagem pode assustar os mais leigos. Mas em seu mergulho no mundo dos signos
significantes e significados, Frascina procura evitar os excessos e adota o que define por semiótica social. Ou seja, segundo ele um quadro chave como Les Demoiselles DAvignon, de Picasso, "não é apenas uma articulação individual dentro de um sistema (...) mas há características na pintura que revelam o significado ideológico do signo".
"Levando-se em conta o contexto da pintura, a representação de um bordel, com seus significados sociais e sexuais, há vários pares potenciais de contrastes sociais e psicanalíticos opostos, relacionados a noções variáveis de Vênus como Madona ou puta", conclui o historiador. Foram muitos os legados do cubismo, entre eles o de romper as amarras com a representação e abrir as portas para o surgimento do abstracionismo, tema do terceiro e último capítulo de "Primitivismo", escrito por Charles Harrison.
Logo no início de seu texto, o historiador já introduz uma interessante distinção entre as formas de representação abstrata, deixando evidente que ela varia de acordo com o momento em que é produzida e negando a noção de uma "arte pura" por excelência. "A não-figuratividade de uma pintura é sempre relativa", diz ele, ressaltando que "o espaço pictórico é algo que aprendemos a entender".
Apesar de centrar suas análises sobre a produção de grandes mestres do abstracionismo, como Malevich e Mondrian, o autor faz questão de ressaltar que própria noção de arte abstrata não pode ser restrita às experiências desse ou daquele artista das primeiras décadas deste século, pois uma série de experiências nesse sentido já vinham sendo realizadas ao longo do século 19. Mas há interessantes aspectos comuns entre os vanguardistas que surgiram nos anos 10 e 20.
Em primeiro lugar, as atenções deixam de estar restritas à Paris, que começa então a perder seu status de capital absoluta das artes. Além disso, há entre eles um desejo utópico de contribuir para a revolução não apenas estética, mas política e social. Como escreveu Mondrian, "a arte é o estabelecimento estético da vida completa - unidade e equilíbrio -, livre de toda opressão".
A publicação é o segundo volume da série "Arte Moderna: Práticas e Debates", produzida originalmente pela Open University - respeitada instituição de ensino britânica -, dando continuidade ao projeto de estudo da evolução do modernismo a partir de um enfoque crítico aberto, que contemple ao mesmo tempo os aspectos sociais e formais da produção artística, iniciado com "Modernidade e Modernismo: A Pintura Francesa do Século 19".
Apesar do esforço dos autores em integrar seus estudos, fazendo referências aos textos dos colegas e às passagens que ajudam a contextualizar o primitivismo, o cubismo e o abstracionismo numa abordagem mais ampla, esse segundo livro da coleção seria mais rico se tivesse, a exemplo do primeiro, um texto introdutório mais genérico. O material iconográfico também tem um tratamento melhor no primeiro volume, principalmente no que se refere ao tamanho e à quantidade das reproduções coloridas, o que facilita muito a "leitura", principalmente nos casos em que os autores praticamente destrincham o processo criativo a partir da contraposição de uma série de obras.
Os dois volumes finais da coleção serão lançados no final de agosto e, durante o mês de setembro, será organizado um ciclo de cursos na Fnac, sobre os temas abordados nos quatro livros.


