A metamorfose de morador da periferia, com baixa escolaridade e emprego precário, para skinhead é um perverso ‘‘processo de defesa’’. Esse processo tem história própria e a antropóloga Márcia Regina da Costa a transformou em objeto de estudo de sua tese de doutoramento defendida na PUC/SP em 1992. Esta tese depois virou livro com o título ‘‘Os Carecas do Subúrbio’’ publicado primeiro pela Editora Vozes, em 1993, e agora relançado pela Editora Musa (239 págs. R$ 26). Desde o início dos anos 80, quando a mais profunda recessão que o Brasil já viveu deu início ao ciclo de ‘‘desindustrialização’’ de São Paulo, apareceram os primeiros ‘‘carecas’’. O material de trabalho da antropóloga foram dezenas de entrevistas, seguidas visitas ao mundo em que viviam e a leitura de centenas de ‘‘fanzines’’, publicações próprias dos ‘‘carecas’’ nos mais diversos formatos.
A história das primeiras transformações de grupos de jovens (ninguém sabe quantos) ‘‘fortes de corpo e puros de mente’’ em um exército de nazistas tupiniquins é objeto perfeito para estudo antropológico. Márcia mostrou a trajetória do que nasceu como ‘‘procura por identidade’’ de jovens pobres e avançou até produzir seguidas mortes em lutas grupais intermináveis com diferentes explosões, tanto de ódios como de bombas.
O começo dos nossos skinheads não foi diferente de qualquer outro país: o berço geográfico dos ‘‘carecas’’ foi a esquecida Zona Leste de São Paulo, bem na região de fronteira com o ABC paulista, na mesma época das greves operárias históricas, tudo no mesmo ‘‘caldo de cultura’’. A antropóloga mostra como os skinheads foram primeiro punks. Desde 1977, o nosso movimento punk - que nasceu como cópia banal de movimentos internacionais -, de cisão em cisão, acabou produzindo, depois de 1981, diversas tribos de ‘‘carecas’’, todas inimigas entre si. Em comum a todas elas, apenas o espírito de gangue. E, gangue existe ‘‘para violar regras, costumes e normas’’ da sociedade em que vivem. Márcia mostra como esses jovens juntam-se para ‘‘defender-se’’: dos bandidos da rua, dos achaques da polícia, do poder nascente dos traficantes, dividindo só o orgulho da miséria mental e material em que viviam. Como a autora notou em seguidos depoimentos de skinheads, depois da recessão 81/83, do fim do emprego fácil, só em ‘‘gangue’’ era possível circular à noite nas ruas da periferia.
Hanna Arendt definiu tais grupos humanos como ‘‘presa natural para os movimentos fascistas’’. Atenta a este alerta, Marcia retoma os dados do artigo da revista Rolling Stone na matéria ‘‘The Skinhead Reich’’ (publicada em dezembro de 1988), mostrando que a rápida expansão dos ‘‘carecas’’ nos Estados Unidos (em 2 anos saltaram de 300 para 3.500) concentrava-se entre jovens de 16 a 19 anos, provenientes da classe trabalhadora, com um ponto essencial em comum: era a primeira geração de americanos que não esperava viver melhor que seus pais. Falavam em ‘‘defesa’’ da nação, dos brancos, do imperialismo. Apresentavam-se como nazistas sem ‘‘qualquer correspondência a uma real consciência política de extrema direita’’. Instigados a responder o que queriam, repetiam em coro: ‘‘a nossa contribuição é o destruir’’.
A antropóloga entrevistou dezenas dos nossos ‘‘carecas’’
e desenhou o roteiro da evolução do movimento. Todos vinham da periferia mas, curiosamente, encontravam-se nos espaços universitários - o Conjunto Residencial da USP (o Crusp) em 1981; os shows de 1982 do então ‘‘Salão Beta’’, na PUC/SP. Depois, já divididos em diferentes grupos, ‘‘carecas’’ enfrentavam-se entre si, e aos punks, na série de shows do Sesc Pompéia, aí já acompanhados da tropa de choque da Polícia Militar. De punk à ‘‘careca do subúrbio’’ era um passo. Márcia notou que a música do conjunto Sex Pistols embalava essa transição e a letra preferida, de Johnny Rotten, já explicitava sem rodeios: ‘‘nós não estamos interessados em música e sim em caos’’.
Nossos ‘‘carecas’’, escreveu a antropóloga, sempre ‘‘consumiram’’ o material que era produzido sobre eles, ‘‘mesmo em inglês’’. E, foi no contato com essa ‘‘literatura estrangeira’’ que eles ‘‘gradativamente’’ se aproximaram dos skinheads ingleses e afastaram-se dos punks. E, igual à ‘‘receita’’ importada que liam, jovens pobres da maior metrópole do País, proletarizados contra a vontade, que tinham de trabalhar duro para sobreviver, organizaram-se em gangues e começaram a autoafirmar-se através da prática da violência explícita. Frágeis frente à crise econômica do início dos anos 80, despreparados para a disputa em um mercado de trabalho mais exigente, os ‘‘carecas’’ repetiam como papagaios ‘‘valores típicos da classe trabalhadora’’ - como o moralismo e o nacionalismo - enfrentando, como escreveu Márcia, a socos e pontapés a ‘‘lumpenização a que estavam condenados’’.
Diversos depoimentos dados à autora mostram, porém, que no final dos anos 80 apareceram entre os ‘‘carecas’’, os ‘‘endinheirados que são nazis’’. Os carecas do subúrbio rejeitam o arianismo: ‘‘aqui não tem jeito, aqui é tudo mestiço’’. Diferentes depoimentos confirmaram que, depois de 1988, surgiram os ‘‘bem informados’’ ou, como resumiu um skinhead que era professor da rede pública de ensino nesse ano: os ‘‘carequinhas que dão orientação’’. No 1º de maio de 1989, ‘‘carecas’’ fizeram uma homenagem aos 100 anos do nascimento de Hitler e a autora já notou a diferença e a briga entre o ‘‘careca de subúrbio’’ e o ideologizado. A antropóloga não especulou sobre o futuro, apenas registrou o que encontrou.
Bertolt Brecht, em uma de suas muitas frases de efeito, garantiu: ‘‘ainda é fecundo o ventre que produziu a besta’’. A tese que agora virou livro da professora de antropologia da PUC mostrou que, ainda que seja por inseminação artifical, esse ‘‘útero maldito’’ ainda mantém a capacidade de reprodução. Apesar da tropical mestiçagem profunda que felizmente vivemos, bombas e ódios continuam achando, entre nós, gente disposta a explodi-los.

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