São Paulo, 05 (AE) - Peter William Evans não conta, mas quando assistiu a "Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos", a feminista Susan Sontag sentenciou - "Há saltos altos e saias justas em excesso". Susan queria dizer com isto que as protagonistas do filme de Pedro Almodóvar não se parecem em nada com as mulheres contemporâneas. Almodóvar lixou-se para ela, um pouco porque adora excessos, mas também porque nunca pretendeu fazer da realidade um espelho. E, depois, o cineasta tem um argumento irrecusável, mesmo para feministas de carteirinha: "As mulheres choram melhor".
Evans é o autor do ensaio crítico sobre o filme de Almodóvar, publicado na coleção Artemídia da Rocco. O livro, como o filme, chama-se "Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos". Disseca a obra que deu projeção internacional ao diretor espanhol e ainda fornece alternativas interessantes para leitura e interpretação de seus filmes posteriores. Evans é professor de estudos hispânicos na Universidade de Londres. Antes do livro sobre o filme de Almodóvar, escreveu outro sobre Luis Buñuel - "Subjectivity and Desire". Evans vai fundo na discussão sobre o desejo ao falar sobre Almodóvar. Reconhece que o tema é essencial em sua obra. Não por acaso, um dos melhores filmes do diretor chama-se "A Lei do Desejo".
O talento de Almodóvar explodiu para o mundo com "Mulheres". Com este filme, o cineasta nascido em Ciudad Real, na Mancha, e estabelecido em Madri desde os anos 60, saiu da marginalidade e ganhou reconhecimento não apenas nos Estados Unidos, onde "Mulheres" foi indicado para o Oscar, mas também na Europa, onde a crítica mais séria comparou seu trabalho aos de Buñuel e Carlos Saura.
Tentando explicar o tom exacerbado de "Mulheres", Evans lembra que Almodóvar, antes desse filme, já se havia firmado como um mestre do excesso. Foi hippie e atuou em shows de travestis, aparecendo de meia arrastão e brincos gigantescos em Labirinto de Paixões. Evans cita uma entrevista em que Almodóvar explica a idéia original de "Mulheres": "Pensei em dar a mim mesmo uma overdose de Carmen Maura, em fazer um filme só com ela aparecendo e ver até onde poderíamos chegar".
O filme nasceu com esse conceito. E, embora os dois tenham rompido, cabe destacar, o que Evans faz, que Carmen continua sendo a quintessência da comedienne almodovariana: cômica, trágica, calorosa, animada, elástica e imperfeita, uma heroína híbrida, sempre equilibrada entre a comédia e o melodrama. Há um capítulo inteiro que se chama Carmen Maura. Outro trata justamente de comédia e melodrama, analisando a influência sobre Almodóvar de cineastas como Douglas Sirk, o rei do melô hollywoodiano, e também diretores como Jean Negulesco e Billy Wilder. Almodóvar curte tanto "Se Meu Apartamento Falasse" e "Crepúsculo dos Deuses" quanto banalidades do tipo "Como Agarrar um Milionário". Com base nessas (e em outras) preferências, Evans não tem muita dificuldade para catalogar Almodóvar como um cineasta pós- moderno, pela erradicação das fronteiras entre a alta e a subcultura, os plágios conscientes, o armazém de citações e a temática insólita de quase todos os seus filmes (antes e depois de Mulheres).
Se ficasse nisso, Evans teria feito um trabalho interessante, mas um tanto óbvio. Numa mordaz tese sociológica, "Pedro Almodóvar - La Otra España Cañí", que ele cita diversas vezes, duas espanholas, Maria Antonia García de León e Teresa Maldonado, já analisaram essas características do autor e o risco que ele corria, depois de "Mulheres", com o aburguesamento progressivo de seus personagens.
O que faz a diferença no estudo de Evans é o capítulo 3, que se chama "Homens e Mulheres". Evans discute a obra de Almodóvar à luz das transformações sociais e de comportamento verificadas na Espanha após a morte do generalíssimo Franco. Conclui, como Guillermo Cabrera Infante, num estudo célebre (Mulheres à Beira de Pedro Almodóvar) , que ele é o melhor inventor feminino do cinema atual - uma espécie de Adão com costelas disponíveis para criar várias Evas. Melhor do que ler o livro, só o prazer de ver o filme, com olhos novos, depois. Para isto, "Mulheres" está disponível em vídeo. (L.C.M.)

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