Livro acende a fúria de Trump
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de janeiro de 2018
Guilherme Bernardi<br>Especial para a Folha 2 
Quando a editora "Henry Holt and Company" recebeu, na quinta-feira (4), uma carta de 11 páginas do advogado do homem mais poderoso do mundo pedindo que um polêmico livro não fosse publicado, a reação mais sensata talvez fosse a de atrasar o cronograma. A decisão tomada, no entanto, foi a de adiantar a publicação para o dia seguinte e não deixá-lo para a terça-feira (9) como previsto.
O livro, rapidamente, atingiu o topo de mais vendidos da "Amazon". "Fire and Fury: Inside the Trump White House" (Fogo e Fúria: por dentro da Casa Branca de Trump) chega ao Brasil em março. Os direitos da obra foram adquiridos pela Editora Objetiva, do Grupo Companhia das Letras.
As discussões em torno do livro de Michael Wolff acontecem desde a quarta-feira (3), quando o jornal "The Guardian" publicou as primeiras citações da obra. A partir delas, as buscas e o interesse cresceram exponencialmente e os fatos narrados no início da reportagem se sucederam. No domingo (7) o livro já estava pirateado.

Fatos alternativos
Michael Wolff é um jornalista de 64 anos, formado pela prestigiada Universidade de Columbia, em Nova Iorque, com passagens por veículos como o "The Guardian"; atualmente trabalha no "USA Today". Wolff já escreveu outros livros, com destaque para "O Dono da Mídia", uma biografia do magnata Rupert Murdoch publicada em 2009, no Brasil, pela Editora Campus.
Ele foi contratado por Steve Bannon, ex-estrategista-chefe de Trump, para trabalhar na campanha presidencial, que foi demitido após partes do livro vazarem. Nelas, Bannon classificou uma reunião do filho de Trump e alguns russos como "traição" e "não-patriótica", além de insultar a filha dele, Ivanka Trump).
Wolff acompanhou o presidente por 18 meses. Nesse período, ele "sentou em um sofá na Asa Oeste (da Casa Branca)" e conduziu 200 entrevistas (inclusive com o próprio Trump). Sobre os relatos, ele próprio diz na "nota do autor", traduzida livremente pela reportagem da FOLHA,: "Muitos dos relatos estão em conflito um com o outro; muitos, no "estilo Trump" (Trumpian fashion), são completamente falsos. Esses conflitos, e a frouxidão (looseness) com a verdade, se não com a própria realidade, são parte essencial da trama do livro." E completa: "Algumas vezes eu deixei que os personagens contassem suas versões, deixando com que o leitor os julgasse. Outras vezes eu, através da consistência de relatos e de fontes nas quais eu passei a confiar, defini uma versão de eventos que acredito serem verdadeiros."
Wolff foi criticado; sua credibilidade e trato com as fontes, questionados. Outros também o defenderam. Quando questionado pelo próprio presidente, que chamou o livro de "falso", o autor respondeu que sua credibilidade estava sendo posta em xeque por um homem que, agora, tem menos credibilidade do que, talvez, "qualquer pessoa que já tenha andado pela Terra".
A eleição de 2016 para presidente dos EUA foi marcada pela "pós-verdade", na qual as convicções próprias valem mais do que a própria verdade, e seu início de governo pelos "fatos alternativos" - quando a equipe de Trump foi questionada pela afirmação do presidente de que sua inauguração teve o maior público da história (as pesquisas a desmentiram), sua conselheira, Kellyanne Conway, retrucou dizendo que, se os repórteres apresentavam esses fatos, ela tinha "fatos alternativos".

O imperador está pelado
Várias histórias do livro, como ele e sua esposa dormirem em quartos separados, o que não acontecia desde John Kennedy (1961-1963), ou o pedido do presidente para que outros dois televisores fossem instalados em seu quarto, além de uma nova fechadura (algo desaconselhado pela equipe de segurança), ou ainda o medo do presidente de ser envenenado, entretanto, não soam como absurdas. O que o livro aparenta é que alguém confirmou as histórias que muitos esperavam serem verdade.
A sanidade mental do presidente foi, novamente, questionada. Desde que foi descoberto que Ronald Reagan (presidente entre 1981 e 1989) pode ter tido os primeiros sinais de Alzheimer ainda na Casa Branca, há uma discussão sobre garantias quanto às condições mentais de um presidente para exercer o mandato. Vários profissionais da saúde mental, inclusive, publicaram um livro ("The Dangerous Case of Donald Trump: 27 Psychiatrists and Mental Health Experts Assess a President" - O Perigoso Caso de Donald Trump: 27 Psiquiatras e Especialistas em Saúde Mental Avaliam um Presidente, em tradução livre) sobre o tema. Vale pontuar, entretanto, que não é recomendável que uma avaliação seja feita sem uma entrevista com o paciente.
Em entrevista à rádio BBC 4, Wolff disse que seu livro causa um efeito do tipo "o imperador está nu", como na crônica de 1837 do dinamarquês Hans Christian Andersen. Na história, um rei, que só se preocupava com sua vestimenta, foi enganado por dois tecelões que lhe prometeram roupas belíssimas e que seriam visíveis apenas para os qualificadas para seus cargos. Os dois ficaram dias fingindo que as produziam, mas, na realidade, nada estava sendo feito. As pessoas da corte, que viam os teares vazios, se assustavam, pois isso significava que não seriam bons o suficiente.
Nenhum deles, entretanto, admitiu que nada podia ver. O imperador tampouco o fez e, inclusive, saiu para um desfile nas ruas com as novas roupas que agora possuía. A população, também receosa de admitir que não via nada, exultava as roupas do monarca até que uma inocente criança gritou e depois a população repetiu: "Mas ele não está usando nada". O imperador tremeu, mas não admitiu que suspeitava que eles estavam certos, pois a procissão tinha que continuar. Ele andou, após os gritos, mais orgulhoso do que nunca e seus nobres continuaram a segui-lo.
Trump, após os dois livros, negou que tenha problemas mentais e afirmou, em um tuíte, que sua trajetória (de bem-sucedido empresário e apresentador de TV a presidente dos EUA em sua primeira tentativa) o qualificaria não como esperto, mas como "gênio...e um gênio muito estável".


