“A Solidão dos Anjos”, novo livro do escritor paranaense Marco Aurélio Cremasco, traz histórias e narrativas nas quais a solidão entra na sala, senta no sofá, abraça as almofadas e abre seu estranho coração. Revela que a solidão é a própria condição do ser humano. E nem mesmo as divindades escapam desta condição: “Deus, ao fazer surgir a luz, procurou vence a própria solidão”.

Lançado pela editora Confraria do Vento, a obra reúne 27 contos em que as personagens olham de frente para os seus dramas. Figuras que podem pronunciar palavras como: “As noites em que os fantasmas aparecem para tornar a solidão um vício.” Ou: “Odeio quem me rouba a solidão sem me oferecer algo em troca.” Ou ainda: “A solidão é o preço que temos de pagar por termos nascido nesse período moderno, tão cheio de liberdade, de independência e do nosso egoísmo.”

Nascido na pequena Guaraci (PR), Marco Cremasco atua como professor de Engenharia Química na Unicamp. Um dos fundadores da revista de literatura Babel, é autor de “Santo Reis da Luz Divina” (vencedor do Prêmio Sesc de Literatura), “Histórias Prováveis”, “A Criação” e “Guayrá”, entre outras obras.

A seguir, Marco Aurélio Cremasco fala sobre seu novo livro “A Solidão dos Anjos”.

Marco Cremasco:  "Talvez alguns tenham a solidão na infância, outros na maturidade, e mesmo aquela pessoa que não a encontre em idade alguma"
Marco Cremasco: "Talvez alguns tenham a solidão na infância, outros na maturidade, e mesmo aquela pessoa que não a encontre em idade alguma" | Foto: Solange Cremasco

A imagem de anjos aparece em várias histórias narradas no livro, mas não a figura angelical do senso comum. Que anjos são esses que povoam “A Solidão dos Anjos”?

Ainda que em tempos de pandemia distâncias geográficas possam ser reduzidas por meio de comunicação remota, nota-se, por mais que se esforce o contrário, o distanciamento (não aquele plenamente justificado pela consciência social e sanitária) entre as pessoas, principalmente nas metrópoles povoadas por anjos anônimos, que buscam preencher o vazio de suas almas. A solidão é inerente à condição humana. Creio, portanto, que tais anjos sejam nós mesmos.

Nas narrativas de “A Solidão dos Anjos” as personagens experimentam diferentes sensações de solidão. Qual seu interesse literário pela solidão?

Assim como está escrito no conto “Avaendy Kuarakuraangava”, a temática solidão foi explorada por pensadores, poetas, escritores, tais como Aristóteles, Nietzsche, Victor Hugo, García Márquez, Baudelaire, Byron, Clarice Lispector, Érico Veríssimo. Quem sabe tais referências literárias possam fazer parte de uma legião seleta de anjos, que vivenciaram a crueza da solidão em diversos matizes: abandono, perda, incomunicabilidade, rejeição, insegurança, indiferença, amargura, inquietação, dúvida, desespero, inutilidade e insignificância. Assim, meu interesse resvala na necessidade de entender um pouco mais sobre a natureza de ser humano.

A velhice aparece como um dos temas recorrente nos contos do livro. Uma velhice que não se encaixa na ilusão da “melhor idade”. Que velhice é essa?

Velhice entendida como a experiência do próprio tempo, gostaria de acrescentar, inclusive para identificar, entre todas as idades em que experimentamos, qual foi ou é, de fato, a “melhor idade”. A melhor idade, suponho, é aquela da plenitude. Talvez alguns a tenham na infância, outros na maturidade, e mesmo aquela pessoa que não a encontre em idade alguma. A velhice, no contexto de “A Solidão dos Anjos”, está associada muito mais ao acúmulo de experiências ao longo de determinada existência, que pode ser a minha, a sua ou de outra pessoa.

No conto “Copistas” você promove um encontro fictício entre as esposas de Tolstói, Joyce e Kafka para conversarem sobre como os escritores são egoístas e ensimesmados. E que para uma mulher se casar com um escritor ela precisar ter alguma vocação para mártir ou masoquista. Os escritores são assim mesmo?

“A Solidão dos Anjos” é uma obra literária e, como tal, não necessariamente expressa o que o autor acredita, enquanto indivíduo, mas o que ele percebe no outro, podendo, inclusive, assumir a identidade alheia. Nesse conto, em particular, essa foi a minha percepção em relação a tais escritores e que não deve ser generalizada. Por outro lado, a criação literária, como qualquer criação artística, é genuinamente egoísta à medida que existe a imersão em si mesmo para, disso, florescer a obra. Guarda-se, neste caso, a analogia ao parto. Ainda que exista a parteira, a mãe é quem dá à luz.

É possível perceber uma forte presença da poesia na prosa dos contos de “A Solidão dos Anjos”. Você possui o interesse em fundir prosa e poesia?

Não existe a intenção consciente em fazer tal amalgama. A poesia, na minha trajetória veio primeiro, e o rigor com a palavra, sua polissemia acaba por influenciar a prosa. Não existe o interesse em tal fusão, pois quando escrevo não me policio se é prosa ou poesia. Deixo fluir e depois se avalio o resultado.

Além de autor de obras de poesia, contos e romances, você é autor de livros técnicos de engenharia química como “Fundamentos da Transferência de Massa”, “Difusão Mássica” e “Operações Unitárias em Sistemas Particulados e Fluidomecânicos”. Como a literatura e a química se relacionam em sua escrita?

Em que doa o trocadilho, deve-se haver a tal química entre elas. Temos a dádiva de viver, a experiência única de saborear a vida naquilo que pode nos oferecer e daquilo que podemos descobrir. A vida não se mostra em uma única face a ser contemplada, assim como a natureza não se desnuda para uma única pintura. Existem o café e o leite em separado, cada um com as suas características que os definem, como também há o café com leite que nos proporciona sensações distintas. Existe, em mim, a Literatura, independentemente de sua origem. Há em mim o que escreve.

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. | Foto: Divulgação

Serviço:

“A Solidão dos Anjos”

Autor – Marco Aurélio Cremasco

Editora – Confraria do Vento

Páginas – 132

Quanto – R$ 49