Livro aborda a potência do silêncio
Narrativas de “Prosa Pequena”, obra de Amilcar Bettega, revelam imagens que se transformam em pensamentos
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 30 de setembro de 2020
Narrativas de “Prosa Pequena”, obra de Amilcar Bettega, revelam imagens que se transformam em pensamentos
Marcos Losnak 
Pegar a imagem com as pontas dos olhos e transformá-la em pensamento. Apanhar o pensamento com a extremidade das palavras e transformá-lo em texto. Fazer da leitura um silencioso passeio por imagens que se convertem em pensamentos e por pensamentos que inundam as pequenas coisas de silêncios.

Esta pode ser uma volátil apresentação de “Prosa Pequena”, novo livro do escritor gaúcho Amilcar Bettega. Lançado pela editora Zouk, a obra reúne 69 breves narrativas ficcionais que o autor descreve como “o pouco mais de nada que preenche os grandes espaços do silêncio entre os eventos fortes do curso da vida: o reino do pequeno, do menor, que sobrevive ao desaparecimento completo unicamente a uma insistente vontade de texto”.
Um dos grandes nomes da literatura contemporânea brasileira, Amilcar Bettega é autor dos volumes e contos “O Voo da Trapezista” (Movimento, 1994), “Deixe o Quarto Como Está” (Cia. das Letras, 2002), “Os Lados do Círculo” (Cia. das Letras, 2004), e do romance “Barreira” (Cia. das Letras, 2013).
Em “Prosa Pequena”, Bettega propõe uma “leitura desarmada deste mundo onde somos solicitados por tudo e por todos e devemos dar opiniões e respostas coerentes a tudo e todos”. A seguir ele fala sobre sua nova obra, “Prosa Pequena”.
Uma das características marcantes dos textos do livro são personagens, ou narradores, passeando pela solidão do pensamento. Que conexões você enxerga entre o pensamento e a solidão? Ou entre solidão e literatura?
Sim, acho que dá para dizer que a solidão é fundamental, tanto para o pensamento quanto para a literatura. A gente escreve e a gente lê sozinho. A leitura silenciosa é um ato de recolhimento, um encontro consigo próprio, e, acima de tudo, um exercício solitário, assim como a escrita. Claro que se pode ler coletivamente, mas aí já faz parte de um pensar juntos também, uma troca, que igualmente é muito importante e faz avançar a reflexão. Mas a conexão maior que faço é entre literatura e pensamento. Um livro pensa, a literatura pensa. Se não for assim, algo está errado. E o tipo de pensamento que a literatura provoca, só ela pode provocar. Não tem nada a ver com o raciocínio lógico, com as cadeias de causa e efeito, com as teses, com as verdades absolutas e, em certo sentido, nem mesmo com a inteligência tal qual ela é entendida muitas vezes: prática, funcional, utilitarista. O tipo de entendimento que a literatura proporciona não se dá exatamente pelas vias racionais.
Em “Prosa Pequena” as pequenas coisas ganham grandes dimensões. O que os detalhes possuem para ampliar a dimensão das coisas?
A vida cotidiana, real, a vida da maioria de nós é feita de pequenas coisas, de pequenos acontecimentos. E é isto que nos humaniza. Este olhar para o menor está de certa forma dentro de um movimento histórico do gênero narrativo. Os grandes feitos, os acontecimentos heroicos, as jornadas épicas de que tratavam as epopeias, são protagonizados justamente por heróis que pretendem incarnar muito mais os valores de um povo, de uma coletividade do que propriamente representar o indivíduo. Quando no século 18 surge o romance, o indivíduo passa a ganhar protagonismo, e, com ele, seus pequenos feitos, suas misérias cotidianas. Além disto, num mundo cada vez mais complexo e multifacetado como é o nosso agora, uma abordagem sistêmica, totalizante, que pretenda abranger tudo é praticamente impossível, e francamente improdutiva para interpelar este mundo. É o foco nos mínimos (e múltiplos) detalhes que nos darão a real dimensão das coisas.
Nos textos de “Prosa Pequena” você faz do ato da escrita o tema da própria escrita. É seu interesse fazer literatura a partir da própria literatura?
Eu procuro tomar cuidado com a maneira de tematizar a literatura. Agora já nem tanto, mas em algum momento nos últimos tempos, talvez pela força avassaladora de obras como a de Roberto Bolaño ou Enrique Vila-Matas, por exemplo, me pareceu haver, nas narrativas contemporâneas, um excesso de personagens escritores envolvidos com escritas de contos e de romances, etc. Mas também me parece normal que o escritor se indague a respeito do processo que ele põe em marcha para criar os seus textos. E acho que isto é ainda mais natural e esperável a partir do momento que o escritor começa a acumular já alguns anos de trabalho e a identificar procedimentos que se repetem na sua maneira de criar. Escrever não é apenas voltar-se para o que vai ser escrito, para os acontecimentos que compõem a narrativa, mas para essência mesma do ato de escrever. Narrar não é apenas pensar no fato que se narra, mas no próprio fato de narrar.
Nos contos o leitor não encontra um final, uma conclusão, encontra uma suspensão, a instauração de um silêncio. Qual sua intenção nessa suspensão?
A ideia de um fecho, uma conclusão, a ideia de um texto fechado, “bem acabado”, cada vez me seduz menos, para não dizer que não me seduz nada. Claro que ainda gosto de ler e admiro alguns contos clássicos, que seguem a cartilha de Poe, que fecham e amarram tudo de maneira exemplar. Assim como os romances e narrativas com início, meio e fim bem marcados e, outra vez, com os fios todos bem amarrados. Mas a verdade é que narrativas deste tipo me soam cada vez mais artificiais. E isto tem a ver com esta pretensão a abarcar tudo, com a ideia – ingênua, afinal de contas – que o mundo possa ser apreendido inteiramente. Na vida, não há finais, não há conclusões. “A vida dele (ou dela) chegou ao fim”, às vezes se diz, como se houvesse uma sucessão de eventos que encaminhasse a vida para o seu desfecho, que é sempre a morte. Mas a morte é uma interrupção brusca desta vida, que não saberíamos como seria se não houvesse a irrupção deste evento preciso, que inibe o que viria a seguir. Nas mortes acidentais isto é ainda mais evidente.
No posfácio da obra você diz que “para ver é preciso silêncio – e para expressar não é diferente”. Qual seria o papel do silêncio na literatura?
O silêncio é essencial para que alguma coisa ganhe expressão. Se não existisse espaços entre uma palavra e outra, a frase seria incompreensível. As respirações da fala, as pausas, os vácuos da linguagem, tudo o que pode ser quando nada é dito: o silêncio é pura potência. Além disto, o silêncio ilumina o que vem antes e depois dele. Então, tão importante quanto dizer é calar. O que se diz ganha relevância pelo tanto que se calou. Eu publico pouco, escrevo pouco, no final das contas. E os livros que não escrevo dão, a meu ver, consistência aos livros que escrevo. O que não faço ajuda a relevar o que faço.

Serviço:
“Prosa Pequena”
Autor – Amilcar Bettega
Editora – Zouk
Páginas – 208
Quanto – R$ 42 (editorazouk.com.br)


