Livro aborda a corrupção política e os políticos corruptos
No romance “Os Sócios do Presidente”, o autor londrinense Valdemir Leonarde trata a corrupção política como condição permanente
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 11 de fevereiro de 2025
No romance “Os Sócios do Presidente”, o autor londrinense Valdemir Leonarde trata a corrupção política como condição permanente
Marcos Losnak/ Especial para a Folha 

Imagine que, certo dia, o presidente do Brasil é destituído do cargo acusado pelo crime de corrupção. O vice-presidente assume o cargo e deflaga uma grande cruzada anticorrupção para moralizar a política brasileira.
Imagine que, seduzida pela campanha, a população passa a louvar o novo comandante da nação. E seduzido pelo poder, o novo presidente se transforma em um ditador. E para punir os corruptos, cria um terrível campo de concentração no meio da floresta amazônica.
Esse é o enredo de “Os Sócios do Presidente”, romance do escritor e psicanalista londrinense Valdemir Leonarde. Escrito no final da década de 1990, a obra acaba de ganhar uma segunda edição revisada lançada pela editora Madrepérola.
O personagem principal da história, Douglas, é um dos sujeitos que se vê confinado no campo de concentração. Sua diferença dos outros presos é que ele é inocente. E para provar sua inocência consegue fugir do lugar e empreender uma grande aventura percorrendo a floresta amazônica, a Bolívia e o interior do Paraná.
Em sua jornada, Douglas descobre que a maioria dos presos não foi trancafiada apenas por desviar dinheiro dos cofres públicos, mas porque sabe dos esquemas de corrupção do novo presidente.
A seguir, Valdemir Leonarde fala sobre “Os Sócios do Presidente” e de como os políticos podem ser perversos.
Em “Os Sócios do Presidente” você imagina um Brasil onde o presidente consegue o impossível: acabar com a corrupção no país. E por conseguir tal feito, é louvado pela população e se torna um típico ditador. O que há de real e de ficção nessa história?
Não pude imaginar uma outra forma de resolver esta questão que não fosse por decreto. Estamos todos muito acovardados para bater de frente com esse problema. Se tivéssemos uma real noção do quão maléfica essa pratica é, talvez não fossemos tão passivos diante dela. Mas isso é só parte do problema. A sociedade, em geral, tem passado por grandes mudanças nas últimas décadas. Na realidade, ganhamos por um lado e perdemos por outro. Se ganhamos em termos de evolução tecnológica, que minimizou muito alguns de nossos sofrimentos, perdemos muito da “garra” que nos permitiu chegarmos até aqui. Estamos terceirizando essa função. Esse fato parece ter criado um empuxo às ditaduras, acreditando que o grande líder venha nos salvar. Com “Os Sócios do Presidente” tento demonstrar as consequências de tentarmos resolver essa questão por esse caminho.
Ao mesmo tempo que “Os Sócios do Presidente” é um romance sobre corrução e justiça. Também é um romance de aventura. Qual sua intenção em unir esses elementos?
O que me motivou a escrever esse romance foi a gestão de um prefeito de Londrina, que na década de 90 desviou uma quantia imensa de nossa prefeitura. Fiquei tão indignado e queria poder fazer alguma coisa. Foi quando surgiu a ideia de poder escrever sobre esse tipo de gente que faz todo tipo de promessa, mas está interessado mesmo nas vantagens que pode tirar. O sentimento que predominava em mim era de vingança pela traição sofrida, apesar de não ter votado naquele candidato. Transformar em uma aventura foi a forma que encontrei para dar vazão aos meus sentimentos, ao mesmo tempo poderia criar uma simbologia do que representa viver em um país diante de governantes tão perversos.
“Os Sócios do Presidente” foi escrito no final da década de 1990, mas dá a impressão de ter sido escrito nos dias de hoje. O que provoca essa sensação de atualidade?
A primeira coisa que as pessoas me dizem, quando ficam sabendo do enredo do meu livro, é que ele será sempre atual em nosso país. Isso demostra uma falta de esperança que esse quadro venha a mudar, o que é muito triste. Da década de 90 para aos dias atuais, temos assistido um número crescente de denúncias nesse sentido. No fundo sabemos que contribuímos diretamente para que esse quadro se mantenha, pois elegemos candidatos que notoriamente não passariam ilesos por uma investigação séria. Tomemos como exemplo a última eleição para presidente, onde a maioria da população optou por ficar entre dois candidatos com seríssimas acusações de abuso de poder. A questão que fica é: por quê agimos assim?
O romance traz uma história sobre a busca pela justiça. Como também traz uma história sobre a impossibilidade de justiça. Isso representa um beco sem saída?
Se levarmos em conta que um dos alicerces da democracia é justiça igual para todos, em um país onde acabamos de ver réus confessos sendo soltos, podemos afirmar que nossa democracia está longe de ser exercida plenamente. Se somarmos a isso uma população dividida pela polarização, o que só favorece os infratores, fica difícil acreditar que possamos juntar forças para mudar essa realidade. Acreditar que essas mudanças possam vir de um grande líder que possa nos salvar é uma forma de nos mantermos na ilusão e, de regra, não nos implicarmos nesse processo. Já fazemos isso com nossa religiosidade, e os resultados estão aí para quem quiser ver.
Como psicanalista, você fez o uso de elementos da psicanálise para compor as personagens de “Os Sócios do Presidente”?
Na época que escrevi o livro estava apenas iniciando na psicanálise, mas o pouco que sabia me ajudou muito na criação dos personagens. A psicanálise nos ajuda a ter uma compreensão mais realista do que realmente somos. Na questão da perversão, elemento que trabalho nesse livro, e que diz respeito as pessoas que tem grandes dificuldades em lidar com limites, regras e leis, ela nos ajuda a entender como esses sujeitos são constituídos. É uma fase que todos passamos em nossa infância, mas somos “convidados” a abrir mão de nosso egoísmo primitivo para podermos viver em sociedade. O grande problema é que sempre desejamos retomar essa fase e poder viver sem lei, o que nos faz ficar flertando com o caos. Infelizmente sofremos dessas incoerências, pois ao mesmo tempo que temos aversão às pessoas que agem assim, temos, no fundo, uma inconfessável inveja. Basta notar o quanto estamos propensos à pequenos delitos. Saber disso pode ser libertador.

SERVIÇO:
“Os Sócios do Presidente”
Autor – Valdemir Leonarde
Editora – Madrepérola
Páginas – 340
Quanto – R$ 69,99 (papel) e R$ 10,99 (e-book)
Onde encontrar – Livraria Olga (Rua Pio XII, 313), site editoramadrepérola.com e amazon.com


