LIVRO A biografia de um alter ego
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 18 de abril de 2003
Marcelo Pen<br> Agência Folha 
Paralelamente às revolucionárias peças escritas na década de 1940, e antes do ciclo das tragédias cariocas como ''A Falecida'' e ''Boca de Ouro'', Nelson Rodrigues (1912-80) exerceu uma atividade literária subterrânea sob o pseudônimo de Suzana Flag: o romance folhetinesco.
O sucesso do primeiro, ''Meu Destino é Pecar'' (1944), que, na forma de livro, vendeu 20 mil exemplares em 40 dias, deve ter suscitado a sequência, em que figuram ''Escravas do Amor'', ''Núpcias de Fogo'', ''O Homem Proibido'' e ''Minha Vida''. Este último, de fato o terceiro da série, ajudou a revista ''A Cigarra'', onde foi lançado em capítulos, a aumentar sua edição em 25 mil exemplares.
Antecessor da telenovela, os folhetins obrigam o autor a incluir ganchos, suspense, reviravoltas sensacionais. No plano artístico, os de Nelson Rodrigues se encontram, a maioria, na pré-história do gênero. Estão mais para Glória Magadan do que para Janete Clair, mais para dramalhões mexicanos do que para Gilberto Braga.
Em ''Minha Vida'', suposta biografia da ''autora'', a adolescente Suzana Flag testemunha o suicídio da mãe. Antes de morrer, a mãe, por alguma razão obscura, amaldiçoa a filha. Transtornado, o pai de Suzana mata-se com um tiro durante o funeral da mulher.
Em seguida, Jorge, o hipotético amante da mãe de Suzana (e causador indireto da morte dela e do marido), pede a mão da moça. Recebe o apoio da avó de Suzana, que, vendo na neta o retrato escarrado da filha, inclusive no temperamento rebelde, acredita que o casamento prematuro impediria uma ''vergonha'' futura. Oposto ao matrimônio está Aristeu, irmão de criação do pai de Suzana. ''Gigante antediluviano'', Aristeu teria marcado a vergastadas uma jovem que o traíra. Apaixonado por Suzana, é capaz de tudo para casar-se com ela, até mesmo levar a família da moça e de Jorge para uma ilha deserta, ameaçando-os de morte.
Não há de fato nenhuma tentativa de verossimilhança, coerência no comportamento dos personagens, vestígio de profundidade psicológica ou relação com o ambiente social. Acentua-se neste romance o desligamento com a realidade. A história talvez se passe no Rio de Janeiro, mas poderia situar-se em Palmas ou em Marrakech.
Outro dado se extrai do exame vocabular. Há uma grande quantidade de adjetivos de significado nefando, como ''hediondo'', ''abominável'', ''infame'', ''abjeto'', ''fatal'', ''possesso'', ''brutal''. Maior até que o uso da palavra ''amor'', verifica-se a ocorrência do termo ódio (''ríctus de ódio'', ''ódio inextinguível'') e seus correlatos, ''cólera'', ''fúria''.
O ódio pode estar relacionado ao desregramento (''fúria de demente'') ou à bestialização (''ódio inumano''). A certa altura tomados pelo ódio, Jorge e Aristeu são descritos como ''bestas-feras, gorilas, monstros de uma espécie desconhecida, menos homens''.
Destituídos de razão ou de qualquer traço de humanidade, os personagens podem então se entregar às emoções e impulsos mais primitivos, que passam a comandar-lhes as ações. É como se, em vez de personagens capazes de expressar emoções, o autor tivesse cristalizado emoções que, à medida que a história se desenrola, ilumina um ou outro personagem antes relegado às sombras.
E, embora tenhamos um ambiente desprovido de contato com a realidade, há uma tela contra a qual essas emoções se colam: o quadro patriarcal da moralidade pequeno-burguesa. Nesse contexto, as mulheres, perversas por natureza, precisam casar-se para salvar-se. Ao homem, cabe amansar-lhes o instinto, nem que seja à força. Claro que essa moralidade surge distorcida, pois abalada pelos impulsos atávicos que ela naturalmente procura reprimir.
Ao contrário das peças de Nelson Rodrigues, porém, onde esse excesso expressivo encontra esteio nos firmes alicerces dramáticos da carpintaria teatral, seus folhetins tendem ao exagero sem repercussão, à pirotecnia sem substância. Trovejam no vácuo artístico. Pouco acrescentam à obra do mestre e nada contribuem para a arte da ficção.
Serviço: ''Minha Vida Romance Autobiográfico'', de Suzana Flag (Nelson Rodrigues). Prefácio de Rachel de Queiroz. Editora: Companhia das Letras
R$ 31 (238 págs.)


