LIVRO - Sting em tom confessional
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terça-feira, 21 de fevereiro de 2006
Antonio Gonçalves Filho<br> Agência Estado 
Além do Sting humanitário, politicamente correto, pai de seis filhos, compositor talentoso e cantor carismático existe um outro Sting que os fãs não conhecem. Ou não conheciam, até o lançamento internacional da autobiografia do músico Gordon Matthew Summer, ''Broken Music'', que agora é colocada no mercado brasileiro como ''Fora do Tom'', em tradução da editora Cosac Naify. Nela, Sting conta como foi difícil perdoar a mãe por ter traído o pai e a si próprio por ter repetido a infidelidade materna ao conhecer a atual mulher, Trudie, enquanto ainda estava casado com a primeira.
Aos 54 anos, Sting conta também suas experiências com alucinógenos ele abre o livro revelando o que sentiu durante um culto religioso do Santo Daime, no Rio de Janeiro, em que tomou a beberagem (ayahuasca, segundo ele). Curiosamente, a autobiografia não reserva muito espaço para a evolução de sua carreira musical. Conta, sim, como aceitou o convite do percussionista Stewart Copeland para formar a banda Police, em 1977, mas concentra sua atenção em sua família disfuncional, em que a mãe, pianista, corria atrás do amante enquanto o pai entregava leite nas madrugadas de Newcastle.
Interrompendo a gravação de seu novo disco, ainda sem título, Sting concedeu uma entrevista em que fala não só da autobiografia, mas de política e religião. Em relação à primeira, não se define. Mostra-se, no entanto, pouco conservador. Quanto à última, diz que não segue nenhuma, pois ''todas as religiões são excludentes''. A seguir, os principais trechos da entrevista com Sting.
Quando ''Fora do Tom'' foi lançado, você disse que jamais considerou a possibilidade de escrever um livro, embora sua autobiografia seja uma peça literária de fato. Você não pretende se lançar como ficcionista?
Gostaria de escrever outro livro, mas não uma sequência de ''Fora do Tom''. Talvez um livro de ficção. No momento ando muito ocupado em escrever as letras das canções do próximo CD, mas não descarto a possibilidade de começar um novo livro após o lançamento.
Seu livro começa com a narração de uma experiência alucinógena com ayahuasca no Rio. Você esteve aqui diversas vezes, foi amigo de Jobim e ajudou Raoni e sua tribo. Como explica essa sua relação com o Brasil?
Você vive aí e eu não preciso dizer que o Brasil é um país muito interessante e rico em termos de história e cultura. São vários países dentro de um só. Sempre me senti estimulado por essa diversidade cultural, pela música brasileira e a floresta amazônica, um lugar muito mais excitante do que eu poderia imaginar.
Li recentemente que você anda interessado em hinduísmo
Não particularmente. Pratico ioga e sei alguma coisa sobre hinduísmo, mas isso é tudo. Vim para o mundo sozinho e vou partir sozinho. É tudo o que eu posso dizer. Não pertenço a nenhum clã, a nenhuma tribo.
No livro, você assume que sem o piano como antídoto para sua agressividade você poderia ter sido um delinquente ou um drogado, considerando as péssimas companhias que teve na escola. A música tem algum elemento místico capaz de mudar a vida das pessoas, seja uma suíte de Bach ou de Prokofiev, que você usa, aliás, em ''Russians''? Por falar em música clássica, já se sentiu tentado a repetir a experiência de Paul McCartney, que compôs um oratório?
Conscientemente, nunca me imaginei compondo música erudita, a despeito de usar Prokofiev em ''Russians'' (um excerto da suíte ''Tenente Kijé''). De qualquer modo, noto que minha música ficou mais sofisticada à medida que fui evoluindo, embora não tivesse exatamente o propósito de me tornar um clássico ou coisa do gênero. Há muito o que fazer ainda. Você nunca chega ao fim da jornada. Ela é longa. Não se pode prever o futuro, mas o certo é que fui realmente salvo pela música. Teria me tornado com certeza um delinquente, não fosse o piano.
Podemos esperar muitas letras políticas no próximo disco?
Certamente estou muito interessado em política, mas não sei se minhas preocupações cabem num disco. Ando um bocado triste com o que está acontecendo no mundo, mas não estou certo se um CD é o veículo apropriado. Talvez não tenha muita escolha.


