LIVRO - Paulo Fortes ganha nova biografia
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de julho de 2004
João Luiz Sampaio<br> Agência Estado 
Por que você não cantou Rigoletto no Rio?, pergunta o autor. ''Em São Paulo fui contratado para fazer duas récitas e acabei cantando oito; cantei na Colômbia, por aí afora; no Rio, não cantei simplesmente porque nunca me convidaram. Poderia até sugerir, reivindicar, quem sabe? Mas aí é que está o busílis: se eu pedir para cantar alguma coisa e me sair mal, vão dizer: 'Esse cretino, idiota, não sabe coisíssima nenhuma'. Já se alguém me chamar e eu for mal se for (graças a Deus não aconteceu) allegro ma non troppo , a culpa não será minha, será do camarada. Não, eu nunca pedi nada. Taí um bom epitáfio para mim: Aqui jaz um sujeito que nunca pediu nada''.
A resposta é do barítono Paulo Fortes, dada em uma entrevista a Rogério Barbosa Lima, que lança agora o livro ''Um Brasileiro na Ópera'', nova biografia romanceada do cantor (Editora Antigo Leblon, 296 págs) há uma outra, ''O Barítono do Brasil'', de Bruno Furlanetto, edição do Teatro Municipal do Rio. Fortes foi um dos grandes da ópera brasileira no século 20. Elogiado intérprete de papéis-chave do repertório tradicional, como Fígaro (no Barbeiro de Sevilha) ou o Falstaff, também fez parte de momentos importantes da história musical recente do País, como as estréias do ''Pedro Malazarte'', de Camargo Guarnieri, e do ''Dom Casmurro'', de Ronaldo Miranda. Isso para não falar de todo um repertório pouco ortodoxo, como as ''Oito Canções para Um Rei Louco'', do inglês Peter Maxwell Davies. Dividiu o palco com mestres da lírica internacional, como Gigli, Di Stefano, Fedora Barbieri, Victoria de Los Angeles. Atuou também no rádio (quando cantou com Altamiro Carrilho), no teatro, na televisão, no cinema.
Todo esse amplo leque de atividades fez de Fortes uma figura privilegiada para lembrar de uma época da música e da cultura nacional. Suas entrevistas mostram um olhar afiado e ao mesmo tempo generoso para com as situações que vivenciou. O livro, claro, reconta sua história, traz depoimentos de cantores, críticos, maestros que trabalharam com ele. Mas alguns dos momentos mais prazerosos da leitura estão mesmo nas entrevistas que o autor reproduz nessa edição. Não é só a diversão proporcionada pelas histórias de bastidores do sempre estranho mundo da ópera. É também pela história do gênero no País que fica nas entrelinhas.


