Antes da voz, dedos e braços falaram milênios. O gesto, anterior à palavra, foi a primeira linguagem humana. Sem contar ainda com o exercício da oralidade, cabia à mímica traduzir as mensagens na idade das cavernas.
  No livro ‘‘História dos Nossos Gestos’’, o historiador, folclorista e etnólogo Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) catalogou 333 gestos, todos comuns aos brasileiros – alguns genuinamente locais, outros importados de outras culturas e ainda outros adaptados.
  O volume se junta aos vários títulos já relançados pela editora Global numa coleção que prevê a reedição de toda a obra do autor. Considerado o mais importante estudioso do folclore brasileiro, Câmara Cascudo deixou cerca de 150 livros, além de 300 artigos e 1,5 mil cartas.
  Se estivesse vivo, estaria completando 105 anos nesta terça-feira. Em ‘‘História dos Nossos Gestos’’, publicado originalmente em 1976, ele organizou as informações através de verbetes explicando os significados e lembrando as origens de cada gesto.
  ‘‘Toque na Madeira’’, ‘‘Beliscão’’, ‘‘Roer Unha’’, ‘‘Cuspir Fora’’, ‘‘Babau!’’, ‘‘Dedos em Cruz’’, ‘‘Surra de Cotovelo’’, ‘‘Tocar no P钒, ‘‘Dar Bananas’’, ‘‘Tirar o Chapéu’’, ‘‘Fazer Olhão’’ e ‘‘Cafun钒 são alguns dos que mereceram comentários em sua extensa lista.
  ‘‘Todos nós aprendemos o gesto desde a infância e não abandonamos seu uso pela existência inteira’’ – anota ele. Mais adiante, afirma: ‘‘Os gestos mais antigos são os manuais e os últimos os olhares com significação especial, já denunciando estágios superiores de convenção coletiva’’.
  Em outra passagem, alerta: ‘‘Negativa e afirmativa, gesto de cabeça na horizontal e vertical, têm significação inversa para chineses e ocidentais. Estirar a língua é insulto na Europa e América, é saudação respeitosa no Tibete. Vênias, baixar a cabeça, curvar os ombros, ajoelhar-se, elevar a mão à fronte, são universais’’.
  Nos textos, Câmara Cascudo mescla erudição e informalidade, citando muitas vezes seus próprios parentes e pessoas próximas como fontes de observação. ‘‘Tenho notado o fato de as crianças agitarem a mãozinha quando aludem a um sofrimento humano. Verifiquei a veracidade nos meus netos. Fingem carinha de choro, com interjeições aliviantes, sacudindo a mão no ar, os dedos semi-abertos, como afastando a sensação dolorosa’’ – conta.
  Em outro trecho, ao analisar a ‘‘Ponta da Orelha’’ e o ‘‘Polegar Erguido’’, escreve: ‘‘Concordando com as coisas excelentes, minha mulher instintivamente aperta o lóbulo da orelha. Meus netos erguem o polegar. Esse gesto popularizou-se no Brasil depois de 1942, trazido pelos aviadores norte-americanos. Os mecânicos levantavam os polegares para os pilotos quando os motores, depois de revistos, funcionavam bem. Dos aeroportos espalharam-se numa rápida divulgação que dura trinta anos’’.
  Defensor dos costumes populares, Câmara Cascudo nasceu no dia 30 de dezembro de 1898 e morreu em 30 de julho de 1986. Além de ‘‘História dos Nossos Gestos’’, as prateleiras receberam recentemente o ‘‘Dicionário Crítico Câmara Cascudo’’ (editora Perspectiva), uma obra de referência que mapeia a bibliografia do pesquisador em 87 verbetes.

SERVIÇO
História dos Nossos Gestos. Autor: Luís da Câmara Cascudo. Lançamento: Editora Global (tel. 11/3277-7999). Preço: R$ 45,00. 288 páginas.

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