LIVRO - Os gestos nossos de cada dia
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 30 de dezembro de 2003
Nelson Sato<br>Reportagem Local 
Antes da voz, dedos e braços falaram milênios. O gesto, anterior à palavra, foi a primeira linguagem humana. Sem contar ainda com o exercício da oralidade, cabia à mímica traduzir as mensagens na idade das cavernas.
No livro História dos Nossos Gestos, o historiador, folclorista e etnólogo Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) catalogou 333 gestos, todos comuns aos brasileiros alguns genuinamente locais, outros importados de outras culturas e ainda outros adaptados.
O volume se junta aos vários títulos já relançados pela editora Global numa coleção que prevê a reedição de toda a obra do autor. Considerado o mais importante estudioso do folclore brasileiro, Câmara Cascudo deixou cerca de 150 livros, além de 300 artigos e 1,5 mil cartas.
Se estivesse vivo, estaria completando 105 anos nesta terça-feira. Em História dos Nossos Gestos, publicado originalmente em 1976, ele organizou as informações através de verbetes explicando os significados e lembrando as origens de cada gesto.
Toque na Madeira, Beliscão, Roer Unha, Cuspir Fora, Babau!, Dedos em Cruz, Surra de Cotovelo, Tocar no Pé, Dar Bananas, Tirar o Chapéu, Fazer Olhão e Cafuné são alguns dos que mereceram comentários em sua extensa lista.
Todos nós aprendemos o gesto desde a infância e não abandonamos seu uso pela existência inteira anota ele. Mais adiante, afirma: Os gestos mais antigos são os manuais e os últimos os olhares com significação especial, já denunciando estágios superiores de convenção coletiva.
Em outra passagem, alerta: Negativa e afirmativa, gesto de cabeça na horizontal e vertical, têm significação inversa para chineses e ocidentais. Estirar a língua é insulto na Europa e América, é saudação respeitosa no Tibete. Vênias, baixar a cabeça, curvar os ombros, ajoelhar-se, elevar a mão à fronte, são universais.
Nos textos, Câmara Cascudo mescla erudição e informalidade, citando muitas vezes seus próprios parentes e pessoas próximas como fontes de observação. Tenho notado o fato de as crianças agitarem a mãozinha quando aludem a um sofrimento humano. Verifiquei a veracidade nos meus netos. Fingem carinha de choro, com interjeições aliviantes, sacudindo a mão no ar, os dedos semi-abertos, como afastando a sensação dolorosa conta.
Em outro trecho, ao analisar a Ponta da Orelha e o Polegar Erguido, escreve: Concordando com as coisas excelentes, minha mulher instintivamente aperta o lóbulo da orelha. Meus netos erguem o polegar. Esse gesto popularizou-se no Brasil depois de 1942, trazido pelos aviadores norte-americanos. Os mecânicos levantavam os polegares para os pilotos quando os motores, depois de revistos, funcionavam bem. Dos aeroportos espalharam-se numa rápida divulgação que dura trinta anos.
Defensor dos costumes populares, Câmara Cascudo nasceu no dia 30 de dezembro de 1898 e morreu em 30 de julho de 1986. Além de História dos Nossos Gestos, as prateleiras receberam recentemente o Dicionário Crítico Câmara Cascudo (editora Perspectiva), uma obra de referência que mapeia a bibliografia do pesquisador em 87 verbetes.
SERVIÇO
História dos Nossos Gestos. Autor: Luís da Câmara Cascudo. Lançamento: Editora Global (tel. 11/3277-7999). Preço: R$ 45,00. 288 páginas.


