LIVRO - O texto segundo Pedro Nava
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 25 de setembro de 2003
Ana Setti Rosa<br> Reportagem Local 
''Pedro Nava e a Construção do Texto'', livro de autoria dos professores Edina Panichi e Miguel L. Contani, publicado pela Eduel, em co-parceria com a Ateliê Editorial, de São Paulo, será apresentado oficialmente à Londrina hoje à noite, em coquetel de lançamento que ocorre no Museu Histórico da cidade. O texto a quatro mãos foi composto a partir de um trabalho de pesquisa, que Edina e Miguel desenvolvem há três anos em torno dos arquivos utilizados pelo escritor mineiro Pedro Nava, morto em 1984, na obra ''Beira-Mar / Memórias 4'', publicada em 1979.
Tudo começou com Edina, doutora em Letras pela UNESP e docente dos cursos de mestrado e doutorado em Estudos da Linguagem na UEL, quando se lançou na empreitada de desenvolver sua tese de especialização. ''Queria trabalhar com a obra de um autor vivo'', comenta. Recaindo em Pedro Nava, sua escolha levou-a, depois de concluída a tese, a ''uma ousadia''. Mandou o trabalho para o autor e tempos depois, surpresa e emocionada, recebeu uma carta em resposta que trazia um convite irrecusável: ''Sou como os ingleses'', escreveu Nava, ''I insist, desejo que outros livros meus mereçam outros trabalhos seus''. Edina seguiu o conselho, insistiu, e fez mais duas teses, de doutorado e mestrado, com base no processo criativo do escritor, tornando-se, assim, uma das maiores conhecedoras de sua obra.
Miguel, docente de Teoria da Comunicação, Teoria da Informação e Estética da Comunicação na UEL e doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP, foi convidado por Edina para participar do trabalho de pesquisa sobre o texto de Pedro Nava em função de seu profundo conhecimento a respeito da ciência geral do signo ou semiótica. Afinal, o material colocado à sua disposição pela família do escritor os arquivos relacionados à ''construção'' do texto de ''Beira-Mar'' haviam se revelado vastos e ricos, especialmente em signos, ícones e símbolos. ''A escrita de Nava'', analisa Edina, ''baseava-se em caricaturas, desenhos, mapas, anotações e apontamentos, que se transformavam em fichas e, depois, em ''bonecos'' ou súmulas, antes de ganhar a forma final''.
Ao mergulhar no estudo das mais de 1.500 fichas, 40 pastas de ''bonecos'' e outras 600 páginas de originais ou ''datiloscritos'', como os chamam os autores, além de inúmeros recortes de jornal, fotografias, diagramas etc., que compõem os arquivos de ''Beira-Mar'', Edina e Miguel deram-se conta de que os recursos usados por Pedro Nava para ''construir'' seu texto poderiam ser repassados a um número maior de pessoas. Surgiu, então, a idéia do livro. ''Observávamos as dificuldades e as insuficiências dos alunos na produção de textos'', explica Miguel, ''e aí percebemos que os ajudaríamos, e também a outras pessoas que têm interesse ou necessidade de escrever, mostrando como se dá o processo de iconicização utilizado por Nava na fase que precede a escrita''.
''Dissecando'' o processo criativo do escritor por meio do livro, Edina e Miguel conseguiram desmitificar a idéia de que ''o texto nasce pronto ou pode ser realizado em operações lineares, como é linear o modo em que se apresentará quando já publicado''. Para eles, a ''coleta de materiais é indispensável para o estabelecimento de conexões entre o que está no mundo e o que está na mente e é transportado de volta para o mundo''. Nava, em sua opinião, era um mestre na arte e ''conhecia caminhos que permitiam enfrentar o que, no meio estudantil, se transforma em bloqueios, típicos do ato de escrever''.
Se, além de ajudar quem tem necessidade de escrever, o livro ''despertar o gosto pela obra de Pedro Nava'', como diz Miguel, a homenagem dos autores ao escritor, no ano em que se comemora seu centenário de nascimento, estará completa. Para Edina, ''Pedro Nava é o maior memorialista brasileiro''. Médico, introdutor da reumatologia como especialidade no Brasil, Nava ''não se dava bem com a idéia da morte''. Até por isso, conforme Edina, escolheu a reumatologia, já que ''não havia perigo de alguém morrer disso''. Começou a carreira literária somente aos 65 anos de idade, com ''Baú de Ossos'', em 1968, optando desde o início por falar do passado, mostrando o Brasil, com suas características culturais e sociais e, em especial, com seus personagens inesquecíveis, para os brasileiros.
Apesar de extrovertido e afável, definia-se como rancoroso, uma reação aos ataques que sofria por causa das revelações de seus livros. Talvez também, lá no fundo da alma, carregasse uma amargura pela infância difícil e sofrida. O que se sabe é que a conjugação desses e de outros fatores acabou por levá-lo a um gesto extremado, o suicídio, em 1984. Contudo, sua obra literária permanece, assim como suas lembranças, que fluem prazerosamente pela escrita, da memória pessoal para a memória coletiva.
Serviço
- Coquetel de lançamento do livro ''Pedro Nava e a Construção do Texto'', de Edina Panichi e Miguel L. Contani,Eduel / Ateliê Editorial. Hoje, às 20h30, no Museu Histórico de Londrina (Rua Benjamin Constant, 900).Preço: R$ 20,00 (com 20% de desconto no lançamento e na livraria da UEL). O livro também poderá ser adquirido, bem como os 315 livros do catálogo da Eduel, pela Internet, no site: www.uel.br/editora


