Adoniran Barbosa é o tipo de personagem que os biógrafos buscam desesperadamente: malandro, irresponsável, amante da birita e talentoso o suficiente para que todos esqueçam os três primeiros defeitos. ''Adoniran - Uma Biografia'' (Editora Globo, 606 páginas, R$ 49), do jornalista paulistano Celso de Campos Jr., surpreende justamente pela discreta entrada na vida louca do autor do ''hino'' de São Paulo, ''Trem das Onze''. Há quatro anos ele foi escolhida, numa pesquisa popular, a música-símbolo da metrópole.
Barbosa - nascido João Rubinato - é acompanhado por seu biógrafo desde a época em que queimava a sola do sapato, tentando vender tecidos para uma tradicional casa da 25 de Março, até o enterro, no Cemitério da Paz, em 24 de novembro de 1982.
O jornalista tinha apenas 4 anos quando o corneteiro-mor da Sociedade de Veteranos de 32, Elias dos Santos Oliveira, atendendo a um pedido de Adoniran feito alguns meses antes, executou o toque de silêncio no cemitério do Morumbi, bairro elegante de São Paulo que o músico só viria a visitar na horizontal - e de olhos bem fechados.
O biógrafo Campos Jr. não conheceu Adoniran. Seu livro, portanto, é fruto de pesquisas no Museu Adoniran Barbosa - onde estão guardadas as relíquias do compositor - e entrevistas feitas com pessoas que conviveram com ele.
O museu ocupa uma das duas caixas-fortes do Banco de São Paulo, na Rua 15 de Novembro, centro de São Paulo. O jornalista foi a única pessoa a entrar nele num espaço de dois anos, o que traduz bem a idéia do esquecimento ao qual Adoniran estava relegado. Autor de ''Saudosa Maloca'' e ''Samba do Arnesto'', duas das mais populares canções brasileiras de todos os tempos, ele já amargava injusto ostracismo quando foi lembrado, pouco antes da morte, pela escola de samba Colorado do Brás, no carnaval de 1982.
Adoniran, já debilitado pela bronquite crônica, saiu sentado no carro alegórico, copo de uísque na mão e olhar perplexo para os participantes da última festa em sua homenagem. Cantar, nem pensar, porque Adoniran nunca teve boa voz, nem mesmo quando tentou a sorte num programa de calouros, em 1931, sendo expulso do palco por um retumbante gongo.
A biografia, repleta de lances engraçados, conta que o compositor, sem se deixar abater, ensaiou um samba de Noel Rosa - ''Filosofia'' - e voltou a enfrentar o microfone, ganhando um contrato na Rádio Cruzeiro do Sul. Foi o começo de Adoniran e o fim de João Rubinato, fã do cantor de tango Carlos Gardel e do tenor italiano Carlo Buti. Sem a aparência de galã do primeiro ou a voz do segundo, restou ao ex-vendedor e futuro sambista exercitar seu charme e conversa mole junto aos radialistas.
A exemplo de seus pais, que chegaram num porão de navio para fazer a América, Adoniran embarcou cedo na nau dos que se safam - dos safados, no seu caso. Num dos episódios mais divertidos do livro, o garoto João, entregador de marmita do Hotel Central, aprende a subtrair bolinhos e pastéis das marmitas para multiplicar as gorjetas recebidas dos trabalhadores da São Paulo Railway.
O truque não deu certo. João Safadão virou mascate, revendendo retalhos de tecidos nos bairros pobres de Santo André. Cansou. Pegou uma bandeja e aprendeu o ofício de garçom. Também não deu certo. De biscate em biscate, João chegou à Revolução de 1932 sem tostão. Salvou-o a irmã Ainez, casada com o gerente da filial paulistana da Casa Seabra & Cia. Empregado, passou mais tempo flanando que vendendo tecidos da indústria têxtil. João era mesmo um caso perdido. Só queria saber de samba, mulher e cachaça. Flanar era a sua vocação. Cantar, a sua desocupação.
A biografia é bastante simpática à figura do homem que descobriu a verve cômica de Adoniran, o jornalista e escritor santista Osvaldo Moles, gênio do rádio da turma de Sérgio Milliet. Se ele não cantava bem, era, por outro lado, um excelente comediante. Para Adoniran, Moles criou o malandro de bigodinho de Casa da Sogra, Zé Conversa, um negro da Barra Funda que vivia para paquerar domésticas e fazer discursos irados contra os brancos.
Um segundo personagem criado por Moles, Giuseppe Pernafina, deu a Adoniran a dica para o português italianado de seus sambas, ao contracenar com outro taxista, Noé, no mesmo programa. Entre uma ''infricção nas amiga'' (infecção nas amídalas) e a ''desinfração do dinhero'', Adoniran atropelou o vernáculo e descobriu que podia faturar mais alguns trocados com a graça.

mockup