''O Grande Gatsby'', de F. Scott Fitzgerald, é desses livros que estão sempre em catálogo. Transformou-se em ícone da literatura norte-americana e recentemente foi eleito por críticos como o segundo mais importante romance em língua inglesa, perdendo apenas para ''Ulisses'', de James Joyce. Essas eleições valem o que valem, mas pelo menos podem ser indicativas do renome de uma obra em determinada época. E, sendo assim, esse romance de 1925 tem sua saúde devidamente atestada para leitores contemporâneos. Mais do que Fitzgerald poderia esperar, sem dúvida. Afinal, ele parecia ter um julgamento relativamente modesto sobre si mesmo.
Em carta à sua filha única, Scottie, escreveu: ''Não sou um grande homem, mas às vezes acho que a qualidade impessoal e objetiva do meu talento, e os sacrifícios que cobrou, aos pedaços, para preservar o seu valor essencial, possui uma espécie de grandeza épica''.
A carta é citada no fim do prefácio escrito pelo tradutor Roberto Muggiati. Aliás, se essa reedição da Record (256 págs.) fosse um DVD, diríamos que vem repleta de ''extras'', para usar a palavra consagrada pelo mercado audiovisual. Além do texto em si, e do já citado e esclarecedor prefácio de Muggiati, há uma breve biografia de Scott Fitzgerald, o prefácio da edição crítica de 1991, o posfácio do editor americano e uma série de ''notas explanatórias'', que são realmente esclarecedoras de alguns aspectos menos claros do romance.
Tudo isso ajuda a ler o livro. Ou melhor, pode enriquecer a leitura de um texto já clássico. Nada impede, porém, que o leitor neófito ingresse no universo de ''Gatsby'' por conta própria, sem levar em consideração a posição do autor na literatura contemporânea, as condições em que o texto foi escrito ou a fortuna crítica monstruosa que amealhou. O livro fala por si e seu enredo é suficientemente claro. Tem sido amado por várias gerações de leitores e foi adaptado três vezes para o cinema. A primeira ainda na fase do cinema mudo. A mais recente, e por isso mais conhecida, com Robert Redford no papel-título, e direção de Jack Clayton. Mesmo assim, pensando bem, essa versão mais recente já tem quase 30 anos. É de 1974.
Como as outras, apenas roça na superfície de ''Gatsby''. Na verdade, transcreve algo do seu enredo e, em seus melhores momentos, sobretudo graças a Redford, consegue passar alguma coisa da melancolia do original. Mas sejamos generosos: não é fácil mesmo transpor uma linguagem para outra. No caso de Scott Fitzgerald essa tarefa parece simples, mas é engano. Como diz Muggiati, ele pode ser aqui e ali simbolista e mesmo surrealista, ''sem que isso viole a fina película realista que envolve o romance''.
''Gatsby'' em aparência é isso: a descrição realista de uma história de amor entre um homem de passado obscuro e uma moça da sociedade. Caso que termina mal, numa tragédia de equívocos que não deixa de surpreender o leitor. A história é contada por um narrador interposto, Nick Carraway, membro empobrecido de uma família aristocrática do Meio-Oeste que vai morar em Nova York. Na geografia, algo real e algo fantástica, de Scott Fitzgerald, é possível que esse pobretão se torne vizinho de um milionário como Jay Gatsby. E que os vizinhos se tornem íntimos porque Gatsby sabe que Nick é primo distante de Daisy, a mulher que foi sua um dia e agora está casada. Por sua vez, Nick está apaixonado por uma amiga de Daisy, a jogadora de golfe chamada Jordan Baker. A trama se filtra por esse narrador um tanto comprometido com o que narra, e daí a impressão de que tudo chega até nós como através de um véu, ou de um prisma que refrata e deforma os raios que o atravessam.
Do ponto de vista técnico, o mais interessante do livro é essa distorção proposital da narrativa. Gatsby, a era do jazz, os tumultuados e brilhantes anos 20, as violentas mudanças de comportamento, a dificuldade de relacionamento entre classes sociais diferentes, o alcoolismo, nada disso é visto com distanciamento objetivo. O testemunho é dado por alguém imerso em sua época e circunstâncias. Nick Carraway é assim, Scott Fitzgerald também, o que não quer dizer que Nick seja alter ego de Scott Fitzgerald. Pelo contrário. Nick talvez exiba uma desenvoltura em relação ao prático da vida que só poderia ser invejada pelo escritor.
Pelo menos é o que indica a biografia de Scott Fitzgerald. Ele viveu num imenso pileque e passou a vida apaixonado por Zelda, uma mulher com distúrbios mentais que teve de ser internada. Morreu com 44 anos. Hoje é fácil lembrá-lo como autor de ''Este Lado do Paraíso'', ''O Grande Gatsby'' e ''Suave É a Noite'', para ficar nos mais notórios. No entanto, logo depois de sua morte, em 1940, caiu em relativo esquecimento. Foi revalorizado depois da guerra e sobretudo nos anos 60, quando se constatou o óbvio: esse cultor da decadência era irremediavelmente moderno.

mockup