Quem assistiu à cerimônia do Oscar 2003 com certeza se lembrará de Michael Moore, ganhador da estatueta, na categoria Documentário, por ''Tiros em Columbine''. A guerra contra o Iraque, decidida sem o aval da ONU, continuava e o constrangimento dos artistas presentes era visível. Mas Moore não se mostrava constrangido. Ele estava era com raiva: ''Vivemos em tempos fictícios, temos um presidente fictício, e a guerra tem motivos fictícios'', disse, em alto e bom som, recebendo vaias e aplausos de um público incerto sobre qual a atitude mais adequada - politicamente correta - a tomar em momento tão delicado.
A crítica ácida e contundente é a essência do estilo de Moore, um cineasta de documentários realistas e irônicos, como ''Roger & Me'', ''The Big One'' e ''Bowling for Columbine'', o vencedor do Oscar 2003, além de autor de livros bombásticos como ''Stupid White Men'' (Estúpidos Homens Brancos), lançado em 2001, logo após o trágico 11 de setembro, e que se transformou num ''best-seller'' mundial, tendo chegado este ano ao Brasil, pela Francis (W11 Editores), que manteve o título em inglês, traduzindo apenas o subtítulo, ''Uma Nação de Idiotas''.
É, a começar do título, o livro de Moore espalha chumbo grosso para todos os lados, associando uma gradual e ''repulsiva mudança cultural'', sofrida pelo povo norte-americano, à formação de uma ''massa crítica'', que permitiu às ''Forças do Mal'' tomarem o poder. No centro de sua raivosa decepção com os rumos tomados pela nação está o ''presidente'' Bush (grafado entre aspas, conforme sugestão do autor), que chegou ao cargo por meio de uma ''maldita eleição roubada. Roubada, sequestrada, raptada e arrancada das próprias mãos e corações americanos''. Mas quem se surpreende com a veemência de Moore, vai se espantar ainda mais com a precisão e a consistência de seus argumentos. Todos os pontos abordados em seu livro são comprovados por dados e estatísticas minuciosamente compilados, que não permitem imaginar que se trate apenas de provocação.
O desencanto de Moore revela-se, especialmente, em relação à deterioração de valores - oportunidades iguais para todos, liberdade, idealismo político - tão cultuados pelos norte-americanos ao longo de sua história. ''Não importa o momento exato em que você acha que tudo se desintegrou diante de seus olhos'', comenta no livro, complementando com a observação que o ''Século Americano'' terminou e só resta o ''Século XXI do Pesadelo''. Entre os muitos exemplos desses nada agradáveis novos tempos, Moore destaca: ''Liberdade de escolha é coisa do passado. Fomos reduzidos a seis empresas de comunicação, seis empresas de transporte aéreo, duas e meia montadoras de carros e um conglomerado de rádio. Tudo que jamais precisaremos pode ser encontrado no WallMart. Podemos escolher entre dois partidos políticos que parecem iguais, votam da mesma forma e recebem fundos exatamente dos mesmos doadores ricos.'' Ele lamenta que ''é tudo igual, é tudo igual, é tudo igual... Como foi que tudo isso aconteceu? Três pequenas palavras: Stupid White Men''.
Na extensa lista de ''estúpidos homens brancos'' identificados por Moore estão: ''...os meninos Bush, que ficaram com a reduzida herança da mente política de papai (sem falar no carisma) e a dividiram entre si, reduzindo-a ainda mais; (...) os diretores executivos da lista dos quinhentos mais ricos de ''Fortune''; os mágicos por trás de Hollywood e da TV de quinhentos canais; diabos, o joão ninguém que vê o adesivo indicando 15 milhas por galão (6,3 km por litro) de seu novo carro e pensa ''nada mau!'', enquanto as nuvens de ozônio se abrem em cima de sua cabeça''. Embora considere que a ''Mãe Terra'' esteja começando a reagir aos maus tratos que lhe vêm sendo impostos, Moore acredita que os norte-americanos não se preocupam com isso, porque ''estamos muito ocupados tentando ganhar dinheiro''.
Ele cita os que viram seus rendimentos sumirem nessa busca ilusória: ''A Nasdaq perdeu praticamente 40% de seu valor, e os americanos médios, ''sinucados'' durante a loucura de especular no mercado com suas magras economias, perderam bilhões''. Mas destaca também os que lucraram: ''Existem cerca de 56 mil novos milionários no país e eles ganharam dinheiro como bandidos''. Segundo Moore, investiram ''em empresas que ficaram ricas ao mandar funcionários embora, explorar crianças e pobres em outros países e receber grandes isenções de impostos''.
Para essas empresas, como defende o autor, ''a ganância não era apenas boa, era obrigatória. Na verdade, foram tão bons na hora de criar um clima de ganância que a própria palavra saiu da moda. Agora ela se chama SUCESSO! e, sim, vem com pontuação própria''. Ao se surpreender a cada contundente desmitificação de tantas fantasias criadas em relação ao nosso poderoso vizinho de continente, de acordo com a visão de Moore, o leitor brasileiro provavelmente se lembrará da velha e repetida teoria: ''O que é bom para os Estados Unidos, é bom para o Brasil''. Será?

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