Há tempos, rumores davam conta de que diversos pesquisadores estavam debruçados sobre arquivos de museus, bibliotecas e outras instituições com a finalidade de publicar novos livros sobre a história de Londrina.
A proximidade do 70º aniversário do município surgia no horizonte como a ocasião oportuna para os eventuais lançamentos. Agora, na semana em que a cidade festeja a efeméride, apenas um volume temático chega ao público: ''Fincando Estacas! A História de Londrina (década de 30) em Textos e Imagens'', de Paulo César Boni.
O livro, de 400 páginas, narra a saga dos pioneiros concentrando-se na primeira década da colonização os anos 30 quando a pequena clareira aberta na mata cerrada foi se transformando numa cidade com cerca de 15 mil habitantes. A publicação foi patrocinada pela empresa Milenia Agro Ciências, através da Lei Rouanet, do Ministério da Cultura.
O autor é professor do Departamento de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina. O projeto original do livro era fazer uma reconstituição histórica panorâmica começando pelo desembarque dos desbravadores trazidos pela Companhia de Terras Norte do Paraná até chegar aos dias atuais. ''Era a proposta inicial, que acabei deixando de lado após encontrar diversas lacunas de informação. Vi que 1 ano (tempo que durou a pesquisa) seria insuficiente para cobrir o período. Optei por delimitar o objeto de pesquisa à década inaugural da formação do município, escolhendo como linha norteadora a organização da infra-estrutura, a parte administrativa que faz uma cidade começar a funcionar como cidade'' explica.
Nesta direção, o autor mapeia as iniciativas que foram importantes para o desenvolvimento do município tais como a construção de escolas, igrejas, hospitais e obras públicas e a organização formal de associações de classe e outras. Minucioso, o autor mergulhou na documentação existente movido por uma curiosidade quase infantil: quem era, afinal de contas, o tal Garibaldi Deliberador que dava nome à rua em que morava?
Fuçou em livros já publicados sobre a história de Londrina e nada encontrou. Descobriu que a memória de outras pessoas homenageadas com nomes de ruas também desapareceu na poeira das décadas. Decidiu, então, embutir anexos ao final de cada um dos 15 capítulos lembrando que tal ou qual personagem citado nas páginas anteriores foi homenageado na cidade ao emprestar seu nome à tal ou qual rua, escola ou teatro.
Boni salienta que a primeira década de existência do município não foi tranquila em termos políticos. Um primeiro conflito ocorreu já na nomeação de Joaquin Vicente de Castro, pelo interventor do Estado Manoel Ribas, para inaugurar a administração pública na cidade. Vindo de Curitiba, em 1934, ele desagradou a comunidade por ter sido imposto de cima para baixo.
Ao começar a organizar a burocracia municipal, chocou-se de frente com a Companhia de Terras Norte do Paraná por ter que cobrar-lhe impostos. A CTNP, vale lembrar, administrava até então extra-oficialmente o ''patrimônio''. Outra tensão política do período foi protagonizada pelo prefeito Willie Davids, o primeiro eleito por votos, em setembro de 1935.
Ele assumiria o executivo municipal por um mandato de cinco anos, mas deixou o cargo com seis meses de antecedência, sob suspeita de corrupção. Antes, foi obrigado a se afastar da cadeira para regularizar sua documentação pessoal, sob a acusação de não ser brasileiro. O levantamento de datas foi um dos desafios enfrentados pelo autor durante a investigação, dada a colisão de informações.
Um dos casos exemplares é a ponte ferroviária sobre o rio Tibagi, em Jataizinho (a 25 km de Londrina), de fundamental importância para o desenvolvimento de toda a região Norte do Estado. ''Vasculhando jornais e livros, encontrei quatro datas diferentes para a sua inauguração. A dúvida permanece, mas as fotografias ajudaram a derrubar pelo menos duas datas que apontavam o ano de 1934. Com o material iconográfico em mãos, percebemos que a construção ainda não estava em estágio avançado ao final desse ano'' diz.

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