LIVRO - Jane Fonda por ela mesma
PUBLICAÇÃO
domingo, 02 de julho de 2006
Patrícia Villalba<br> Agência Estado 
''Minha Vida Até agora'' é a autobiografia de Jane Fonda, mas bem que poderia ser um manual de psiquiatria. A autora, agora com 69 anos, é obsessiva, filha de uma suicida, tem crise de identidade, distúrbios alimentares, problemas com a auto-imagem e baixa auto-estima, insiste na transferência da figura paterna e, enfim, não fosse ela a charmosa estrela de cinema, poxa vida, tudo isso seria um pouco demais para se ler antes de dormir.
E tem também as passagens que chamaram muito a atenção quando o livro foi lançado nos Estados Unidos no ano passado, quando Jane conta que participou de orgias nos anos 60, para agradar ao então marido, o cineasta francês Roger Vadim - estas, sim, são boa leitura para antes de dormir.
Mas muito fina, Jane não chega a dar detalhes das noites em que dividiu sua cama com uma mulher trazida da rua por Vadim - aquele que, além de ''E Deus Criou a Mulher'' e ''Barbarella'', passa para a história como o homem que se casou com Catherine Deneuve, Brigitte Bardot e Jane Fonda. Em vez disso, diverte contando que o melhor das orgias era mesmo ficar conversando com a parceira da noite anterior durante o café da manhã.
''Para mim, isso era uma forma de trazer um pouco de humanidade ao relacionamento'', escreve a atriz. ''Eu lhe perguntava sobre si, tentando entender sua história e o motivo por ter concordado em compartilhar nossa cama.''
São conclusões desse tipo, depois de grandes revelações, que fazem de ''Minha Vida Até Agora'', um livro que soa tão verdadeiro. Jane conta a infância atribulada que teve, filha de um pai ausente - o astro Henry Fonda - e de uma socialite com graves problemas psiquiátricos - Frances Seymour, que cortou a garganta com uma navalha quando Jane tinha apenas 12 anos.
Explica como se tornou bulímica, para se enquadrar no famoso e terrível padrão magérrimo, até sair do controle. Lembra os tempos divertidos das filmagens de ''Barbarella'', a fantasia cult de Vadim, e surpreendentemente confessa que se comparou várias vezes - e para pior - com Brigitte Bardot. Relata a viagem, em missão de paz e contra o governo Nixon, ao Vietnã, em plena guerra. E abre os bastidores dos vídeos que a transformaram no mito da ginástica nos anos 80.
Militante por definição, seja a causa que for, Jane vê a autobiografia como uma maneira de ajudar outras mulheres a refletir sobre suas vidas. Talvez por isso, ela tenha detalhado tanto as passagens em que se submeteu aos caprichos de seus maridos, fazendo de tudo para ser querida - atire a primeira pedra quem nunca torceu pelo Corinthians por estar namorando um corintiano ou não virou habitué de cineclubes bolorentos para agradar a um certo estudante de cinema charmoso da ECA.
Serviço:
- MInha Vida Até Agora, de Jane Fonda. Editora Record, 644 páginas, R$ 69,90.


