Poucos pioneiros deixaram em Londrina pegadas tão marcantes quanto o imigrante Haruo Ohara (1909-1999). Quando chegou aqui, em 1933, para ocupar com a família o Lote 1, comprado da Companhia de Terras, trazia na bagagem um costume japonês: registrar num diário suas experiências. Desde que saiu em 1927 da província de Kochi, situada na ilha de Shikoku, sul do Japão, aos 17 anos, ele atravessou o mar fazendo anotações e dando pistas de que queria se comunicar bem com as pessoas do outro lado do mundo ao misturar à língua original palavras em inglês que, decerto, serviriam para alguma coisa. Só mais tarde, nos anos 40, palavras em português também despontariam no diário. Mal sabia ele que, muitas décadas depois, essas informações junto com os depoimentos de familiares, amigos e o acervo de centenas de fotografias que deixou, serviriam de base segura para o livro que está sendo lançado: ''Lavrador de Imagens - Uma Biografia de Haruo Ohara'', trabalho minucioso de pesquisa, texto e edição de Marcos Losnak e Rogério Ivano, que desvenda o pai de família, o agricultor e o fotógrafo numa medida equilibrada, simples e harmoniosa, como um jardim japonês.
Quem aparece primeiro é o homem, o rapaz cheio de sonhos que sai do seu país para ganhar o mundo, pagando com trabalho o tributo de viver em terra estrangeira, aprendendo novos costumes e arrancando com as mãos o sustento da lavoura, enfrentando o pó, a lama, os mosquitos, as doenças como qualquer cidadão que, nos anos 30, cumpriu o desafio de viver no Norte do Paraná, entre o assombro, as dificuldades e as delícias do novo.
No cenário de mata e desafio, pode-se dizer que Haruo Ohara retribuiu a generosidade da terra à altura. Aqui viveu, amou, plantou, criou e deixou raízes. Nove filhos foram o saldo da vida que trilhou com Kô Sanada, com quem se casou em 1934 por amor, num tempo em que os casamentos entre as famílias japonesas eram feitos por arranjo. Haruo e Kô estão entre os felizardos que driblaram o miai-kekkon (casamento arranjado) para celebrar o rennai-kekkon (união por amor). A alegria desse encontro, que duraria mais de 40 anos, até a morte de Kô em 1973, transbordava para o cotidiano da Chácara Arara - nome com que foi batizado o Lote 1 - que ficava onde hoje está situado o Aeroporto de Londrina. A colonização da terra e sua produtividade marcavam os dias da família Ohara na propriedade em que a monotonia da lavoura cafeeira também ''casava'' com outras plantações. Haruo Ohara, um autodidata, plantou também pomares e jardins e na atividade de agricultor talvez tenha apurado o gosto estético que o transformaria no fotógrafo sensível que teve na natureza um foco onde nunca cansou de centrar as lentes. O interesse em cultivar frutas e flores foi uma característica de Ohara que permite um vislumbre de seu gosto artístico incipiente, armando nos jardins e, mais tarde nas fotos, delicadas composições. Como lembra Marcos Losnak, em entrevista à Folha, ''cultivar flores, de certo ponto de vista, podia parecer inútil''. Mas num momento em que a riqueza do café era marco e cobiça no Norte do Paraná, os Ohara traziam do sítio para a cidade a carroça cheia de pencas e maços. Flores e frutos podiam não dar tanto dinheiro, mas a beleza e a abundância também ajudavam a viver. E eles faziam a sua parte.
Certamente, o agricultor que deitou sementes de todas as espécies na terra, acompanhava os ciclos da natureza de sol a sol. No trabalho duro, também tinha olhos para nascentes e poentes, beiras de rio, céu de todas as cores, enfim era sensível à paisagem. Essa percepção somada à cultura geral talvez tenha redundado no senso artístico que hoje faz dele um dos grandes fotógrafos do seu tempo. Ele brilha entre os que, a partir dos anos 30, transformaram Londrina numa terra memorável, através de registros de grande valor.
Rogério Ivano, que junto com Losnak passou dois anos pesquisando e escrevendo a biografia de Ohara, afirma que ele era dono de ''uma erudição no estilo antigo, não no sentido da especialidade''. O agricultor-fotógrafo gostava de música clássica e tinha grande apreço por seus discos e sua vitrola moderna, lia autores japoneses e ocidentais, apreciava haikais, estudava botânica e, às vezes, demonstrava criatividade e ousadia de forma muito peculiar. As cobras que encontrava nas matas, ele enviava vivas para o Instituto Butantã, em São Paulo, recebendo em troca soro antiofídico. E numa epidemia de varíola, imunizou os trabalhadores do seu sítio de maneira inusitada: espetou a agulha na ferida de um braço já vacinado e ''reproduziu'' a vacina em outros colonos, demonstrando conhecimento do princípio da imunidade num tempo em que as doenças eram difíceis de serem evitadas e tratadas.
Em 1938, Haruo Ohara se deparou com o recurso mágico que transformaria sua vida: a câmera fotográfica, que passaria a ter tanta importância quanto a terra no seu cotidiano. Com o estímulo do amigo e também fotógrafo José Juliani disparou o primeiro click, flagrando a esposa Kô debaixo de uma laranjeira. Céu, folhas, avental, sorriso.
No livro que está sendo lançado, a capa reproduz uma das fotos mais estupendas do seu acervo: num auto-retrato, ele sustenta a enxada entre os dedos, sob um céu de nuvens encrespadas que se encosta na terra. Luz e sombra. Homem e paisagem. Criatura e criador. A imagem é só uma amostra do olhar sensível e do apurado senso estético do fotógrafo que, este ano, vai integrar o calendário Pirelli/Masp junto com outros grandes nomes. No próximo dia 21 de agosto, também abre em São Paulo uma mostra com suas fotos numa sala exclusiva, como explica o neto Saulo Ohara que herdou do avô o gosto pela fotografia e fez a produção do livro.
Outras exposições já revelaram ao público, a partir dos anos 50, a memória da colonização e do desenvovimento do Norte do Paraná registrada por Haruo Ohara desde os anos 30 até o fim dos anos 80. Cenas familiares, paisagens rurais , ruas de Londrina estão no acervo que ainda deve ter muito a revelar. Incansável e metódico, Ohara nunca deixou de fotografar, nos últimos anos trocou as imagens em preto e branco pela cor. Focou as lentes sobre os jardins, registrando invariavelmente a explosão de flores e folhagens. Sem nunca perder a luz e a meticulosidade, fazendo da técnica uma aliada da poesia do olhar.
A obra de Marcos Losnak e Rogério Ivano, que chega às livrarias na próxima segunda-feira é, sobretudo, um resgate da vida familiar de Ohara. Conta em detalhes como chegou e viveu em Londrina uma família japonesa que trouxe na bagagem um sonho de desenvolvimento que remonta ao início do século com a imigração. Uma cultura que influenciou gerações de brasileiros em costumes e modos de ver e refletir o mundo. Trata-se de uma epopéia pessoal, cujos detalhes é melhor conhecer nas 165 páginas que começam como o sol nascente, pleno de vida, generosidade e abundância em conjunção com a terra. Termina como o poente, com uma sucessão de perdas familiares e a morte de Haruo Ohara em 25 de agosto de 1999. O desfecho melancólico é respingado de luz e sombra. Como um álbum de fotos antigas refletindo a saudade, mas carregando a beleza para além dos dias.


Serviço:
''Lavrador de Imagens - Uma Biografia de Haruo Ohara''. Pesquisa ,texto e edição de Marcos Losnak e Rogério Ivano. 165 páginas. A partir de segunda-feira, dia 11 de agosto, o livro estará à venda em Londrina nos seguintes locais: Livraria Bom Livro (Rua Pernambuco, 391 e Shopping Catuaí); Livraria Rosa do Povo (Av. Higienópolis 602, loja 08): Livraria Gaudí (Rua Mato Grosso 310, loja 227 - Shopping Royal). R$ 37,00. A obra foi publicada com patrocínio do Promic (Programa Municipal de Incentivo à Cultura) e família Ohara, com apoio da Garagem Comunicação (que também fez o projeto gráfico e a editoração), Difotografia e Hospital de Otorrino de Londrina.

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