LIVRO - 'Dislexiquês' sem traumas
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de julho de 2016
Murilo Pajolla<br> Especial para Folha 2 

A infância não é uma fase só de alegrias. Junto com as brincadeiras divertidas e a leveza de uma vida sem compromisso, passamos por situações de ansiedade: um primeiro dia de aula, a adaptação a uma nova escola, a construção de amizades ou aquele momento tenso em que a professora nos pede para ler um texto em voz alta diante da sala toda.
Esses momentos podem ser particularmente traumáticos para os portadores de dislexia, um transtorno de origem neurológica que causa dificuldades na leitura, escrita e soletração. Embora a condição tenha sido diagnosticada pela primeira vez em 1881, ainda não há consenso no meio científico acerca das suas causas.
Nos últimos anos, especialistas e até artistas de televisão têm se empenhado em campanhas pela conscientização de que a dislexia não está relacionada à falta de capacidade intelectual, uma ideia que ainda faz parte do senso comum. O tema chamou a atenção dos organizadores da Festa Literária Internacional de Parati (FLIP) deste ano, que convidaram a londrinense Marina Miyazaki Araújo, autora do livro "Dislexicando" (editora Pólen, 2015), para abordar o tema em três rodas de conversa com pais, adolescentes crianças.
"Dislexicando" é uma obra fundamental para quem quer se colocar no lugar de um portador de dislexia. A autora trata o tema de maneira muito bem-humorada, mas sem perder a contundência, com uma linguagem acessível para o público infantil. A obra traz uma crítica aos pais, professores e médicos que insistem em tratar os disléxicos apenas como vítimas, o que pode ofuscar a criatividade e as potencialidades das crianças.
"Quis fazer um livro sem vitimizar ninguém. Os médicos dizem que dislexia não é doença, mas nos tratam feito doentes. A dislexia é um problema, mas um problema muito pequeno. Pode haver dificuldades, mas as crianças têm que saber que elas vão dar conta de superá-las", afirmou.
Ainda sem saber que era disléxica, a escritora passou maus bocados na infância. "Na hora de ler textos, eu pulava muitas linhas, não conseguia prestar atenção na sequência do texto. O jeito que eu encontrei de não passar vergonha na frente dos colegas foi colocar símbolos iguais no final de cada linha e no começo da seguinte para eu não me perder. Mas mesmo assim às vezes me embananava toda", lembra.
Marina perdeu a conta de quantas vezes ouviu dos professores, sempre num tom condescendente, que ela deveria se acalmar e ler quantas vezes fossem necessárias, o que só fazia aumentar o nervosismo e o constrangimento. Dessas vivências nasceu a inspiração para o "Dislexicando", que ela classifica, em tom de brincadeira como uma "vingança dos disléxicos".
Isso porque o livro é recheado de palavras cuja grafia não segue o padrão ortográfico e de repetições de vocábulos e parágrafos. Tudo de maneira semelhante a que muitos disléxicos escrevem. Muitas editoras se interessaram pelo livro, mas não aceitaram publicá-lo no idioma "dislexiquês". "Decidimos segurar o livro até encontrar quem publicasse da nossa maneira. Isso para quem é careta são erros, mas para nós é só um jeito mais criativo de escrever. Foi a maneira que encontrei para me comunicar sem amarras, sem medo de errar", comenta.
Marina é a prova viva de que a preocupação dos pais de crianças disléxicas podem ser tempestade em copo dágua. Trocar algumas letras e esquecer palavras de vez em quando não a impediu de exercer a vocação da escrita. Por influência da família criou em 2008 o blog "Mulher e Futebol", que chamou a atenção de cânones do jornalismo esportivo brasileiro.
"Meu marido é completamente doente por futebol e quando assistíamos aos jogos, eu sempre fazia comentários e criticava os jogadores por não se posicionarem politicamente e só pensarem nos seus contratos. Ele sugeriu que eu escrevesse sobre isso e com o tempo achei uma boa ideia".
Marina foi convidada a participar de programas em canais de esporte pagos e seus textos foram para no blog Terceiro Tempo", de Milton Neves. A autora publicou ainda o livro "Pai Francisco", também pela editora Pólen e participou da confecção de apostilas didáticas. Recentemente seu conto "Sentimentários" foi transformado em filme de animação que participou do 16º Festival Brasileiro de Cinema Universitário.
Depois de diversas idas ao psicólogo e médicos, aos 49 anos Marina parou de brigar com a dislexia. "Você precisa de um tempo para se conhecer, de descobrir macetes para ajudar a organizar a cabeça. Todo mundo é assim, não só a gente".
Eles não entendiam qe ela aprendia, mas as falhas acontecian mesmo assim, e também não sabiam diferenciar os tipos de erro que a menina cometia. E ela acreditava, cada vez mais, que não podiam chamar isso de dificuldade de aprendizagem, mas sim de: problema-de-desorganização-no-cerebro-para-guardar-as-coisas-que-aprendeu. Os erros aconteciam na desorganização das coisas que entravam na cabeça ou quando estas mesma coizas saiam do cérebro. Por-zemplo, escrevia 'çopaca' ao invez de 'paçoca', mesmo sabendo que o certo é 'paçoca'. Não era dificuldade de aprendizagem, era bagunçalidade na aprendizagem" (Trecho de 'Dislexicando", pág.35)


