LIVRO - Dicionário gay suscita polêmica
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de junho de 2006
Fábio Galão<br>Equipe da Folha 
Curitiba - A idéia é inusitada: compilar em um livro 1.300 expressões utilizadas pelos gays brasileiros. O título é coerente com o espírito debochado da obra em questão: ''Aurélia, a dicionária da língua afiada''. Lançado recentemente pela Editora do Bispo, de São Paulo, o livro pode gerar uma pendenga judicial.
Na semana passada, o Grupo Positivo, de Curitiba, empresa que detém os direitos sobre o conhecidíssimo Dicionário Aurélio, notificou a editora. ''Foi uma notificação extrajudicial, na qual pediram para que retirássemos o 'Aurélia' de circulação'', disse o jornalista Xico Sá, sócio da Editora do Bispo. ''É uma coisa bem Idade Média querer que livro seja retirado da prateleira''.
Em nota, o Grupo Positivo alegou que ''a família do lexicógrafo e professor Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, representada pela viúva Marina Baird Ferreira, coordenadora da obra Aurélio, declara-se 'contrária a qualquer demonstração de homofobia', mas dispensa a 'homenagem' ao dicionário. Quanto aos aspectos comerciais, a Editora Positivo estuda medidas cabíveis''. Os direitos de edição, distribuição e comercialização do Aurélio, nas versões impressa e eletrônica, pertencem ao Grupo Positivo desde dezembro de 2003.
Sá explicou que o projeto do ''Aurélia'' começou a ser desenvolvido quando os autores do dicionário (que assinaram o livro com os codinomes Ângelo Vip e Fred Libi) procuraram a Editora do Bispo. ''Eles tinham publicado os verbetes na internet, meio que por gozação, já com o nome Aurélia. Montaram uma rede nacional de informações e pegaram expressões de todo o Brasil'', apontou o jornalista.
''Nós estranhamos a notificação do Grupo Positivo. Consideramos o nome 'Aurélia' uma homenagem, o reconhecimento do Aurélio como o grande dicionário brasileiro. Além disso, o nosso livro não concorre com o Aurélio. É uma paródia. Não tivemos nenhuma intenção de fazer alguma sacanagem com a família. Temos um espírito bem-humorado. Eu diria que nessa atitude (da família e do Grupo Positivo) há um pouco de homofobia. Não vamos recolher o livro'', afirmou Sá. O jornalista disse que parte dos lucros com a venda de ''Aurélia'' será direcionada para entidades que prestam assistência a soropositivos.
Na nota, o Grupo Positivo argumentou que ''se une à família e ratifica posição contrária à discriminação de qualquer ordem. Porém, a corporação sente-se no dever e na obrigação de proteger qualquer marca que lhe pertence, especialmente nesse caso, já que o objeto em questão é o Aurélio, uma instituição nacional e referência para a Língua Portuguesa''.


