LIVRO - Caldeirão cultural
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 12 de agosto de 2003
Angela Raizer Barbosa<br> Reportagem Local 
Gastronomia e cultura sempre andaram juntas, compondo um prato cheio de sabor e informação. No Brasil, essa combinação ganha proporções infinitas graças à mistura das raças que aqui aportaram com suas tradições e costumes. Nada mais adequado que, ao buscar algo que simbolizasse a contribuição social, econômica e cultural de origens tão variadas, contar a história de dez famílias tradicionais acompanhadas de algumas receitas de sua cozinha.
O resultado desse suculento trabalho de pesquisa está no livro ''Dez Culturas à Mesa'', com texto de Pedro Cavalcanti (128 páginas, DBA Editora). A obra foi elaborada pela Associação da Soberana Ordem Militar de Malta instituição humanitária internacional, fundada em Jerusalém no século 11, presente em 100 países no Brasil desde 1957 mantendo asilos, hospitais e creches.
Resultado de um projeto beneficente apoiado pelo Ministério da Cultura, com o intuito de arrecadar verba para o Centro de Assistência Cruz de Malta, o livro detalha informações do cotidiano das famílias Matarazzo (Itália), Feffer (Israel), Levet (França), Sauer (Alemanha), Diniz (Portugal), Okubo (Japão), Zaragoza (Espanha), Rizk (Líbano), Buarque de Holanda e Cavalcanti (Brasil).
Das dificuldades iniciais encontradas pelos estrangeiros ao chegar ao Brasil às mesas fartas geradas pelo enriquecimento, o leitor embarca numa viagem que resgata uma série de conceitos gastronômicos. Lasanha, esfiha, eisbein, bacalhau, paella, tournedo, vatapá, sukiyaki e outras 32 receitas provam que a culinária brasileira traz o gosto e o cheiro da diversidade étnica.
No visual sofisticado da publicação, as fotos coloridas das receitas se contrapõem às imagens em preto e branco de álbuns de famílias de imigrantes, com textos que contam a trajetória desde sua chegada ao Brasil. Lá está, por exemplo, a família do Conde Francisco Matarazzo, imigrante italiano que chegou ao Brasil no fim do século 19 e aqui construiu um dos maiores impérios industriais. Descreve seu ritmo de trabalho, suas realizações, além das reminisciências de sua neta, Graziela, que lembra da sagrada hora das refeições, com a presença dos 12 irmãos, todos respeitando o costume de não deixar nada no prato.
A família Okubo, como tantos outros imigrantes japoneses, além das dificuldades para se estabelecer em um trabalho que lhe garantissse a sobrevivência, enfrentou outras barreiras não menos difíceis a cultura e os costumes brasileiros. A língua soava incompreensível e a comida parecia pouco convidativa. Com dificuldades em adaptar-se ao novo cardápio, esses imigrantes preparavam em casa refeições com todas as características da culinária japonesa, introduzindo assim as delícias da cozinha oriental no Brasil.
No capítulo dos ''brasileiros'', o autor lembra que apesar das longínquas raízes européias, a história de algumas famílias confunde-se com a própria história do País desde o século 16. ''Especialmente no Nordeste, onde os Holanda, Cavalcanti, Bandeira de Mello, Nabuco e tantos outros senhores de engenho foram sobrevivendo e combinando-se entre si durante quase cinco séculos de vida brasileira. Muitos caíram no anonimato ou se perderam no emaranhado dos casamentos com gente de fora'', escreve Pedro Cavalcanti.
Nas receitas familiares originais, as medidas aparecem em ''libras'', ''arráteis ou pires'', e a quantidade de açúcar é o ''quanto basta'', ''a gosto''; ponto pode ser ''de fio'', ''de espelho'', ''de pasta'' (expressões devidamente traduzidas na edição do livro).
Mas para quem partilhava de uma refeição na família dos Buarque de Holanda, o mais importante não era a precisão das receitas, mas a cordialidade que imperava à mesa. Afinal, foi Sérgio Buarque de Holanda, no livro ''Raízes do Brasil'', que reforçou o perfil do brasileiro como o ''homem cordial''. E na expressão consagrada pela música de seu filho, Chico, ingredientes precisos também não eram preponderantes, pois todos os doces pareciam ter sido feitos ''com açúcar e com afeto''.n
Serviço:
O livro Dez Culturas à Mesa (R$ 68,00) pode ser adquirido pelo fone (11) 5581-0944, fax (11) 572-6231 ou site: www.cruzdemalta.org.br, e-mail: [email protected]


