Algum dia, no futuro, o Brasil vai reconhecer o escritor curitibano Wilson Bueno como um dos grandes reinventores de nossa literatura, mas tudo o que ele tem escrito caminha exatamente na direção oposta. Bueno tem sérias dúvidas sobre a invenção e não acredita absolutamente na autoria. Deve considerá-la uma questão burguesa demais para ser levada a sério. Algo assim tão mesquinho merece, portanto, seu desprezo.
Não contente em emular o estilo de Machado e Eça em seu livro anterior, ''Amar-te a ti nem Sei se com Carícias'', Bueno investe com grande sucesso no gênero fabular em seu novo e delicioso livro, ''Cachorros do Céu'' (Editora Planeta, 96 páginas). Não é exagero prever que o escritor ainda será adotado nas escolas como uma espécie de Ivan Krilov dos trópicos, um sátiro que usa bestas para criticar nossa corrupção e incompetência. Krilov (1769-1844) foi um representante da Idade da Razão. Bueno vive numa era irracional. E escreve sobre ela.
Se Krilov avançou no terreno da zoofilia em relação a seu predecessor La Fontaine, Bueno dá dois passos desmoralizantes no precipício de um gênero literário que usa a sabedoria popular para separar vícios e virtudes. Não há moral nas fábulas do brasileiro, como não há moral no faroeste que abre ''Cachorros do Céu''. Nessa primeira fábula, Dog, o Facínora, o cachorro que ameaça os bichos mais fracos no saloon de Rabbit, o coelho anão, é um retrato bastante fiel do proscrito que hoje dita as leis na favela e periferia das metrópoles - um tipo ferino, quase cruel e vagaroso, na definição do próprio autor. Digo, narrador.
No saloon de Rabbit é um salve-se-quem-puder. O jabuti encolhe-se, disfarçado de bacia, mas tem pouca sorte. O macaco esperto, capaz de dançar tarantela em meio a balas perdidas, escapa de uma fábula para outra, retornando como o eterno safado (aquele que se safa). Resistente à adoção como modelo de uma narrativa pedagógica, o macaco funciona no livro como o leão mau-caráter das fábulas do russo Krilov, sempre em busca de um lobo servil para exterminar as ovelhas negras de seu rebanho. Por ser o parente mais próximo do alvo principal de Bueno, o primata seduz o leitor para escapar do julgamento do autor. Digo, narrador.
Ao contrário de La Fontaine e Krilov, Bueno não invade o zoológico em busca de retratos alegóricos de sórdidos bípedes que pensam (ou julgam que pensam). Em outras palavras: não humaniza os bichos, nem bestializa os humanos. Equipara os dois. São ambos irremediavelmente repulsivos. Não por outra razão, a epígrafe que abre o livro busca em Ovídio (''Se os bichos falassem, nada diriam'') uma definição para a perplexidade do narrador. Recusando o papel de apólogo, resta a Bueno assumir a ironia do verbo ''fabulare'': escreve como se estivesse narrando a história a um amigo, mas um amigo capaz de entender o humor requintado, as referências eruditas e as aliterações cubistas.
Os livros anteriores do escritor constituem provas vigorosas de sua rejeição à moral média e desprezo pela intransigência com que ''autores'' defendem a originalidade. Seu campo de batalha é a reescritura. Bueno lida com demolição. ''Meu Tio Roseno, a Cavalo'' (Editora 34) não se parece com Guimarães Rosa. É deliberadamente uma cavalgada ao lado dele no grande sertão linguístico, misturando português, espanhol e guarani nas terras do sem fim, dominada pelo poder do berro.
Se o herói de ''Meu Tio Roseno'' é um tipo rústico, o de ''Amar-te a ti nem Sei se com Carícias'' é refinado, mas igualmente contraditório, bestial mesmo, como os tipos do século machadiano que ainda circulam pelo mundo moderno. É desse anacronismo que trata a literatura de Wilson Bueno, um sopro de ar renovador no mofo acadêmico.

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