O título foi inspirado no nome científico da banana: ''Musa Paradisíaca''. De página de jornal, virou livro, um calhamaço de mais de 700 páginas que chega agora aos leitores pela editora Mirabilia.
A obra, de autoria da poeta Josely Vianna Baptista e do designer gráfico Francisco Faria, reúne dezenas de poemas, entrevistas, ensaios, traduções, fotografias e trabalhos visuais tudo compilado da coleção de páginas semanais publicadas entre 1995 e 2000 nos jornais Gazeta do Povo (de Curitiba) e A Notícia (Joinville-SC).
O painel abrange autores e artistas nacionais e latino-americanos revelando-se um estimulante mapeamento das produções literária, visual e intelectual contemporâneas. A seção principal é dedicada à poesia, prosa e idéias. As outras duas contemplam as artes plásticas e a cultura ameríndia. A ensaísta e pesquisadora carioca Heloísa Buarque de Hollanda e o poeta Luis Dolhnikoff assinam os textos de apresentação.
Entre os criadores nacionais elencados figuram os irmãos Haroldo e Augusto de Campos, Waly Salomão, Miguel Rio Branco, Carlito Azevedo, Carlos Ávila, Waly Salomão, Antonio Risério, Adriana Varejão, Nelson Ascher, Júlio CastaÀon Guimarães, Paulo Pasta, Valêncio Xavier, Alice Ruiz, Geraldo Leão, Maurício A. Mendonça e Rodrigo Garcia Lopes.
Já o bloco hispânico reúne nomes como José Lezama Lima, Julio Cortázar, Severo Sarduy, José Kozer e Roberto Echavarren. Nem todas as matérias publicadas originalmente na imprensa puderam reaparecer no volume. Para o livro, a edição privilegiou as entrevistas (reproduzidas na íntegra) e as traduções de material inédito. Totalmente inédito, aliás, é o texto trazendo entrevista com o poeta e ensaísta judeu Benjamin Hollander.
No caso, a matéria estava pronta quando a publicação de ''Musa Paradisíaca'' foi interrompida no jornal curitibano. Josely, poeta de extração neobarroca, puxa a sardinha para seu lado tematizando suas preferências estéticas ao longo dos encontros com os autores. O assunto vem à tona durante três conversas com o poeta paulistano Régis Bonvicino que, curiosamente, é flagrado mudando radicalmente de opinião de uma entrevista para outra.
Numa delas, ele desanca o neobarroco assinalando que em seu interior seriam contrabandeados valores velhos como a metaforização excessiva, versos retóricos e a proliferação de verdades inconsequentes. Em seguida, em outra conversa com Josely, contradiz a declaração anterior informando que as únicas tendências que lhe interessariam no momento são o ''neobarroco'' e a language poetry.
Ao capturar as idéias e o pensamento em trânsito dos autores, ''Musa Paradisíaca'' repercutiu quase todos os debates em voga no mundo das letras e das artes. Longe do eixo Rio-SP, que costuma pautar a agenda nacional, apresentou seu próprio repertório de assuntos sem nunca trair seu projeto editorial. A propósito, fala-se há tempos de uma suposta crise no jornalismo cultural brasileiro.
O tema esteve presente, por exemplo, numa das mesas-redondas da última Bienal do Livro. Com frequência, os escritores são os mais exaltados na condenação do que consideram a rendição definitiva dos ''cadernos b'' à lógica da indústria do entretenimento. A paulatina extinção das páginas literárias e a ofensiva para aposentar o jornalismo de idéias, tratado como ''papo-cabeça'' pelos obtusos de plantão nas redações, só favorecem os detratores.
''Musa Paradisíaca'' rompeu com o padrão dominante nos matutinos. Foi um oásis na imprensa do País, como fora a página ''Leitura'' na década de 80 na Folha de Londrina.

mockup