Livreiro descobre retrato a óleo de São Paulo de 1821
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quinta-feira, 30 de março de 2000
Por Ana Weiss 
São Paulo, 31 (AE) - Pedro Corrêa do Lago foi ao Rio, no ano passado, para visitar uma biblioteca que estaria cheia de raridades. Ao entrar na sala onde se localizava a estante na qual faria sua averiguação de praxe, o curador do módulo "O Olhar Distante - núcleo na Bienal dos 500 Anos que dá conta da produção de artistas estrangeiros que retratam o Brasil - deparou-se com um retrato panorâmico de São Paulo, de quando esta cidade era cerca de 500 vezes menos habitada, ou seja, tinha nada mais que 20 mil habitantes.
Como uma dessas ironias da vida, foi no exercício de seu principal ofício, o de livreiro, que o autor de "Iconografia Paulistana do Século 19" descobriu o que considera ser a mais importante obra da iconografia a que se refere o título de seu livro. O quadro sobre a estante era Panorama da Cidade de São Paulo, óleo sobre tela finalizado por Arnaud Julien Palire em 1821, até então absolutamente desconhecido. "Havia apenas suspeitas de sua existência, por conta de outras obras de arte"
conta o curador. As suspeitas baseavam-se especificamente no cruzamento de três obras, duas delas do próprio Pallire. A primeira é uma panorâmica, também em óleo sobre tela, de Vila Rica, pintada um ano antes da similar.
Série encomendada - Como o artista servia a d. Pedro, podia-se inferir que o desejo do imperador de ter uma vista panorâmica de cidades do império não se restringiria a Vila Rica
mas se estenderia a todas as cidades imperiais importantes, como o era São Paulo. De fato, constatou-se agora que não só as dimensões dos dois trabalhos são idênticas como ambos apresentam o mesmo par de anjos no canto superior da pintura carregando o nome das cidades, o que aponta para a possibilidade de se tratar de uma série. Série que, com a descoberta de Corrêa do Lago, agora soma duas obras conhecidas.
"Mais que isso, a descoberta traz o que é o primeiro retrato a óleo da cidade de São Paulo antes da chegada da fotografia", festeja ele. Corrêa do Lago terá de atualizar o livro que mal acaba de lançar. "Apesar de os trabalhos reunidos no livro cumprirem o papel de mostrar pela arte a história da cidade, nenhum deles tem o valor artístico do óleo de Pallire."
Outra pista da existência era uma aquarela com a mesma vista de São Paulo, o panorama visto do Rio Tamanduateí, também do pintor e de 1821. A tela, segundo o pesquisador, agora se confirma como uma espécie de rascunho da obra final, o óleo que permaneceu por mais de cem anos em coleção de uma família que vive no Rio - aquela que o curador foi visitar em busca de livros raros e prefere preservar o nome.
A terceira pista é uma miniatura do busto de d. Pedro. O fundo de Simplício, de Rodrigues de Sá, é composto por uma vista da cidade de São Paulo, cenário que se imaginava tratar da recriação melhorada da aquarela de Pallire. Mas a sensação visual de "melhora" devia-se à fonte real do fundo de Simplício, o panorama a óleo do pintor francês.
Mesmo que a descoberta do paradeiro do importante quadro tenha sido um acidente, esses três objetos sustentaram durante anos a possibilidade do aparecimento da tal panorâmica, razão pela qual Corrêa do Lago pôde reconhecer o quadro. Assim, de acordo com ele, as obras estarão na exposição O Olhar Distante" junto ao quadro, agora um dos focos principais do núcleo também sob a curadoria do francês Jean Galard.


