Quando o cientista e físico britânico Isaac Newton sentenciou a famosa ‘‘lei da ação e reação’’ talvez nem imaginasse as proporções que ela tomaria nos séculos seguintes. Seguindo essa linha condutora de causa-conseqüência, entre outras abordagens existencialistas, o grupo ‘‘Criando a Liberdade’’, integrado por oficineiros e internos da Penitenciária Estadual de Londrina (PEL), iniciou na última terça-feira a primeira de três apresentações do espetáculo ‘‘O rato, o gato, o cachorro e o homem’’, para o público e familiares na unidade. O projeto de oficinas teatrais foi iniciado em 2004 e recebe o patrocínio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic).
  A encenação passeia por sete diferentes histórias – das quais duas vivenciadas na vida real por internos – que propõem reflexões a respeito da convivência com a diferença, além da importância das decisões na vida de cada um. Com roteiro bem conduzido, tais indagações são feitas de modo explícito pelos atores e detentos que, durante o desenvolvimento dos atos, convidam a platéia a escolher o rumo dos personagens.
  Antes de iniciar o espetáculo, cada espectador recebeu três cartões nas cores verde, amarelo e vermelho, correspondentes a um final diferente para cada história. Por exemplo, quem deveria morrer no triângulo amoroso apresentado: o homem, a amante ou a esposa? ‘‘O público acaba assumindo responsabilidade. As pessoas tiveram suas escolhas. Às vezes a gente percebe que elas podem ser tão cruéis quanto os detentos já foram um dia e como a gente pode ser violento também’’, refletiu Letícia Ferreira, responsável pela direção do espetáculo.
  Atualmente o grupo é composto por 17 internos de alas diversas da PEL. De acordo com Letícia, para trabalhar com o teatro é preciso lidar com as diferenças. ‘‘No começo a gente nem sabia que tinha divisão de galerias na penitenciária. Mas conseguimos juntar os detentos da 7ªala – que são aqueles que correm risco de vida e estão fora da convivência – com os demais. Isso é muito gratificante’’, disse. Entre as boas surpresas do ‘‘Criando a Liberdade’’ está a classificação do projeto entre as 100 melhores experiências em tecnologias sócio-culturais, no Prêmio Cultura Viva, do Ministério da Cultura, em 2006. Segundo Letícia, o projeto, que também conta com a colaboração de Ed Sombrio e da atriz Ana Cláudia Sardinha, foi o único desenvolvido em penitenciárias no país.
  Munida de improvisações, talento e certa dose de humor, ‘‘O rato, o gato, o cachorro e o homem’’, além de transformar passividade em interatividade, proporciona a vivência artística aos detentos. Cumprindo uma pena de 9 anos e meio, é o oitavo espetáculo do qual Sinivaldo Domingos Neves, 30 anos, se propôs participar. Nessa remontagem, Neves teve papel importante com seus relatos pessoais que se tranformaram em uma das histórias verídicas da encenação. ‘‘Em 2000 eu li uma reportagem no jornal que falava das oficinas teatrais que eram desenvolvidas com os presos. Quando fui transferido para a PEL, decidi me dar essa oportunidade’’, revelou. Além de atuar, Neves também revelou seu gosto pela estrutura teatral: ‘‘Tenho vontade de trabalhar com dramaturgia e direção. Também escrevo algumas peças, que geralmente são autobiográficas’’, disse.
  O atendente Edmar Marcelino, 24 anos, decidiu assistir à apresentação por já ter ouvido comentários a respeito do projeto. ‘‘É um trabalho interessante, e alguns internos acabaram se descobrindo como verdadeiros atores aqui dentro, o que talvez lá fora eles não teriam essa oportunidade. Adorei a peça e, em alguns momentos, achei engraçada. Acho que eles conseguiram transmitir o que foi proposto’’, refletiu o jovem.


Serviço:

- As demais apresentações de ''O rato, o gato, o cachorro e o homem'' vão acontecer no próximo dia 16, ao público em geral e no dia 18, para familiares. Os interessados em assistir a montagem e também a decidir o final das histórias devem ligar para (43)3315-7676, informando o nome e o número do RG.

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