BUENOS AIRES (AE) - A crise econômica reduziu o poder de consumo e mudou radicalmente os hábitos do povo argentino. Mas nem todas as pessoas foram atingidas. Se os produtos supérfluos deixaram de ser comprados, os livros mantiveram o status de objetos de primeira necessidade. Prova disso é a história de uma das mais belas livrarias de Buenos Aires, a El Ateneo, localizada na Avenida Santa Fé, 1.860.
Inaugurada em fevereiro de 2000, a livraria firmou-se em meio à recessão, ganhou uma fiel clientela e é hoje destino cultural obrigatório na capital. Instalada no antigo cine-teatro Grand Splendid, a El Ateneo restaurou o prédio erguido em 1903, mas com o cuidado de manter o projeto arquitetônico original. São cinco andares quatro com livros e o último com quadros pintados por artistas nativos.
A visão que se tem das galerias é simplesmente espetacular. É, em poucas palavras, uma livraria dentro de um teatro de luxo. No acervo, 25 mil títulos e mais de 180 mil exemplares espalhados em uma área de 1.500 metros quadrados.
O gerente da casa, Gustavo Ferrer, conta que os frequentadores costumam passar horas, dias inteiros na livraria. O local onde ficava o palco do antigo teatro serve hoje como espaço para leitura. Lá, funciona ainda um confortável café, no qual se pode fazer uma rápida refeição.
''O argentino adora ler. Ele fica aqui um bom tempo, às vezes lê o livro todo, mas, na hora de ir embora, ele o compra, porque quer tê-lo em casa'', explica. Por dia, cerca de 3.500 pessoas visitam a loja e mais de mil exemplares são vendidos.
''Quando os habitantes tiveram o poder de compra reduzido, não deixaram de ler, muito pelo contrário'', diz o gerente. A mudança, segundo ele, foi que as obras de ficção perderam espaço para as de não-ficção. ''Na crise, as pessoas deixaram um pouco de lado os romances e passaram a procurar mais os livros de história, política e tudo que os ajudasse a entender melhor o que estava acontecendo na Argentina.''
Assim como ocorre no Brasil, as obras que mais fazem sucesso atualmente são as ficções infanto-juvenis e os livros de auto-ajuda. Com uma diferença: o preço costuma ser 40% mais em conta na Argentina.
Quer comprar um livro de autor brasileiro e entende bem o espanhol? Vá para a Argentina. Com uma encadernação tão boa quanto a nacional, ''Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei'', de Paulo Coelho, só para citar um exemplo, é vendido na El Ateneo por 12 pesos - ou seja, R$ 12,00. No Brasil, o mesmo título custa entre R$ 24,00 e R$ 30,00. (M.R.L.)

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