LITERATURA/POSSE - Mindlin torna-se imortal
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segunda-feira, 09 de outubro de 2006
Beatriz Coelho Silva<br> Agência Estado 
O empresário e bibliófilo José Mindlin, 92 anos, respeita tanto a Academia Brasileira de Letras (ABL) que não se deixou fotografar nas provas do fardão com que toma posse hoje da cadeira 29, que durante 52 anos foi ocupada pelo escritor Josué Montello. Há pelo menos duas semanas prepara seu discurso, em que elogia seus antecessores, como é praxe, mas também conta sua relação com livros e como formou sua biblioteca, a maior coleção privada do Brasil, com 38 mil títulos, muitos raros, alguns exemplares únicos no País. A novidade é que falará de improviso. ''Por um problema de saúde, não consigo mais ler'', lamenta. ''Veja que injustiça!''
Injusto mesmo, para quem, desde a adolescência, foi ligado à cultura em geral e aos livros em particular. Sua primeira aquisição, aos 13 anos, foi ''Discurso sobre a História Universal'', de Jacques Bossuet, tradução portuguesa de 1740. Não sossegou enquanto não comprou todos os livros que constavam da bibliografia. Ajudou muito ter começado a ganhar seu próprio dinheiro como redator do jornal O Estado de S. Paulo, dois anos depois, em 1930. ''Entrei em maio, fiz 16 anos em setembro e fiquei até 1934. Acho que fui o redator mais novo do jornal e hoje sou o mais antigo'', brinca. ''Foi uma experiência fantástica porque era época da Revolução de 30 e o doutor Júlio Mesquita, um dos líderes, me encarregava de passar as instruções para seus aliados em inglês para despistar a censura.''
Essa jovialidade é a marca de Mindlin, que alega ser ''o mais novo e talvez o mais velho membro da Academia Brasileira de Letras.'' Em seu discurso, ele vai lembrar três amigos que o ajudaram a formar sua biblioteca, libertários como ele. Rubens Borba, que foi diretor da Biblioteca Nacional e do acervo da ONU, Luiz Camilo de Oliveira, que dirigiu biblioteca do Itamaraty e foi um dos redatores do Manifesto dos Mineiros (a primeira iniciativa de oposição ao Estado Novo, em 1943) e o crítico literário Antônio Cândido. Vai falar também dos muitos amigos que fez na Casa de Machado de Assis e que, praticamente, o obrigaram a se candidatar. ''Para mim foi um acaso, nunca tinha pensado, até porque sou mais leitor que escritor'', conta. Foi eleito quase por unanimidade, com 33 dos 37 votos válidos. Houve um branco e duas abstenções, de Paulo Coelho e Ariano Suassuna.


