LITERATURA/ENTREVISTA - O desafio foi colocar isso em poesia
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 19 de setembro de 2006
Antônio Mariano Júnior<br>Reportagem Local 
Você se lembra em quais circunstâncias cronológicas ou sentimentais a poesia lhe veio com firmeza, com vontade?
Em momentos de crise existencial. Na adolescência isso já se manifestava... E também em momentos de mudança, de transformação, de questionamento, de afirmação perante ao mundo das minhas idéias e sentimentos. Só agora é que esse ser sentimental, emocional está tendo uma cara, uma expressão.
Existe um fio tênue em sua poética de melancolia e/ou de inquietude sentimental, não?
A melancolia é um traço dos poetas, pelo menos de grande parte. Ninguém que escreve com alguma profundidade é um ser superficial - é, sim, um ser que viaja para dentro. E a melancolia é algo que te leva para dentro.
Mas isso não seria um traço de personalidade?
É de personalidade, mas de uma personalidade criativa. Você pode usar sua melancolia só para se entristecer e tomar Lexotan, ou usar sua angústia existencial como mote de criação. Você pode canalizar sua inquietude de várias maneiras: sentindo demais e não fazendo nada com essa matéria-prima ou sentir e aproveitar para dar um salto.
Você deixa bem claro que sua poética é feminina, sensual, até erótica, não?
Sim, ela tem um erotismo sutil. Mas é erótica com um refinamento, é corpo e espírito - o que para as mulheres não é uma coisa simples. As mulheres não se entendem com sua sexualidade ainda, essa é verdade. Expressam isso se vestindo, botando roupinha curta, decotão. Mas na hora de fazer disso um conceito e de se entenderem como pessoa, se perdem.
E que tipo de mulher você é?
Eu sou a mulher que está na minha poesia: muito sensível, que gosta de desafios. Acho que o amor, o sexo e o erotismo são as chamas da vida. O dia em que a pessoa não tem mais isso, ela morre. Você pode criar muitos interesses, mas isso é algo que te liga à vida profundamente.
Esse livro sai no momento certo, num momento particularmente latente?
Sai, nada acontece fora do tempo. É a soma das minhas experiências...Tenho 49 anos, tive uma vida afetiva forte. Quer dizer, conheci pessoas, me apaixonei muito. O livro acontece num momento da minha vida em que posso falar de tudo isso com maturidade. Se tivesse colocado tudo forçadamente para querer fazer poesia vinte anos atrás, talvez não viesse com intensidade. Hoje minha escrita está mais sedimentada, mais clara para mim.
Você acha que sua poesia seria bem assimilada por um homem?
Seria, porque no meu blog quem mais faz comentários, às vezes, são homens. Eles sentem a poesia da mulher e talvez isso abra um universo meio fantástico, do imaginário feminino. As mulheres gostam porque se identificam. Cada um de nós tem elementos em suas vidas e eu fui cercada pelos elementos femininos desde muito cedo.
Então, se fosse para classificar, rotular, o que você diria da sua poética?
Uma poética do imaginário feminino com suas rendas, seus perfumes, bordados, a textura da pele, a textura da vida. Isso é sensorial, uma inteligência sensorial. Não quero ficar burilando versos e tentando achar a fórmula perfeita. A fórmula perfeita é a expressão da sua alma, da sua dor humana. Por isso, acho que cada um pode perfeitamente se expressar. É um fluxo que vem da minha vivência, da minha experiência e da minha sensibilidade. E o desafio foi colocar isso em poesia.
Serviço:
- Lançamento do livro ''Sensível Desafio'' (Editora Atritoart), de Célia Musilli. Sexta-feira, às 19 horas, na Biblioteca Pública de Londrina, dentro da programação do Londrix 2006. O livro custa R$ 20,00.


